sábado, 15 de novembro de 2014

Pixote: A Lei do Mais Fraco



Olá leitores! Depois de muito tempo venho aqui comentar sobre este clássico do nosso cinema dirigido por Hector Babenco (Carandiru) e estrelado por Fernando Ramos da Silva, Marília Pêra e Jardel Filho.
A história é sobre um garoto que abandonado pelos pais, vive nas ruas praticando pequenos furtos, até ser enviado para um reformatório onde é obrigado a conviver com a truculência dos policiais e jovens deliquentes. Saindo do reformatório, torna-se um traficante de drogas e assassino com apenas 11 anos de idade.
Não há dúvidas de que Hector Babenco conseguiu transmitir com muito realismo a dura realidade de crianças e jovens que vivem nas ruas, e isto no início da década de 80! E ainda hoje provoca discussões sobre o "excesso de realismo", pois de fato é um filme que choca.
O que me deixa intrigada é que esse "excesso de realismo" quando vindo de fora é aplaudido, e torna-se um "cult", mas quando se trata do nosso cinema, são sempre os mesmos comentários: "filme nacional só tem palavrão, filme nacional só mostra favela, etc". Creio que seja um desmerecimento com o nosso cinema (que por sinal é muito bom), a arte além de entreter, ela deve levar o sujeito a pensar, refletir, e se você não esta disposto a isto, não assista Pixote.
Ótimas atuações, sobretudo de Fernando Ramos da Silva (Pixote), que conseguiu mostrar com sua inexperiência como ator, tudo o que o personagem exigia: medo, carência, coragem, rebeldia, e uma naturalidade incrível diante das câmeras.
É claro que choca ver uma criança com uma arma nas mãos e exposta aos mais diferentes tipos de violência. Na sua primeira noite no reformatório, Pixote presencia um estupro, ele vê seus amigos serem mortos pelos policiais. Mas não vamos esquecer de que é esta a dura realidade de muitas crianças.
Quando consegue sair do reformatório com alguns amigos, e de volta às ruas, ele volta para os pequenos furtos, mas desta vez envolve-se também com um grande traficante: Cristal (interpretado pelo saudoso Tony Tornado) que aproveita do fato dos garotos serem menores de idade, e os alicia para que sejam pequenos traficantes.. 
Em meio a sonhos e brincadeiras que simulavam assaltos, assassinatos, o filme muito me lembrou do documentário realizado por MV Bill e Celso Ataíde: Falcão: Meninos do Tráfico. São crianças abandonadas pela família, sociedade e que não encontram outra saída a não ser a do crime, por acreditarem que este é o caminho mais fácil. E nem preciso comentar sobre os famigerados reformatórios, que no caso de Pixote, deixa bem claro: não ressocializa, são fábricas de marginais, crianças tratadas com o maior desprezo possível, afinal, eles estão à margem da sociedade.
Um outro aspecto que muito me chamou atenção foi a relação de Pixote e a prostituta Sueli (Marília Pêra). Quando os dois se veem sozinhos, Pixote volta a ser apenas uma criança e Sueli o acolhe em seus braços como se fosse um bebê. E como um bebê, ele suga o seio de Sueli, não há nenhuma conotação sexual na cena, fica explícito que aquela criança queria uma mãe, pelo menos precisava de uma naquele momento. Sueli se compadece, mas em seguida o afasta afirmando "não gostar de crianças", no entanto, Sueli pouco tinha a oferecer para aquele garoto tão carente e tão judiado pela vida.


O filme foi premiado no mundo inteiro, e Fernando teve seus cinco minutos de fama. Acredito que seja válido destacar que Fernando não era um menino de rua, ele tinha mãe, e trabalhava para ajudar em casa, e foi durante o trabalho que uma produtora o descobriu. Após o sucesso do filme, ele ainda tentou seguir na carreira de ator, mas não conseguiu. Influenciado pelos irmãos, entrou para a vida do crime e foi covardemente assassinado por três policiais aos 19 anos, deixando uma esposa e uma filha pequena. Sua curta trajetória pode ser vista no filme: "Quem matou Pixote?", baseado no livro escrito por sua esposa: "Pixote Nunca Mais"
Destaque para as participações de: Elke Maravilha, o grande ator Rubens de Falco (já falecido) e Beatriz Segall.

Cotação: *****

Link para assistir online: Pixote: A Lei do Mais Fraco

terça-feira, 18 de março de 2014

Ninfomaníaca - Volume I e II



Sem muitas apresentações porque acho totalmente desnecessário, considerando a grande expectativa do público e a jogada de marketing sobre o novo filme do cineasta dinamarquês Lars Von Trier, a história é sobre Joe (Charlotte Gainsbourg) encontrada desmaiada por Seligman (Stellan Skargard), que presta ajuda à desconhecida, levando-a para casa. Ela então começa a contar sua vida, suas experiências sexuais.
Estou ciente de que minha crítica será bastante simplista, mesmo porque eu não consegui me familiarizar com o cinema de Lars Von Trier, existem muitas simbologias e muitas de suas crenças estão contidas em alguns de seus filmes. E Ninfomaníaca não foge à regra.
Particularmente tive curiosidade de assisti-lo, porque basicamente os filmes que falam da compulsão sexual em mulheres sempre me soou muito machistas. A única personagem que consegui identificar realmente o vício pelo sexo, e o sofrimento que qualquer vício traz, foi Anita, filme homônimo, sueco, produzido na década de 70, do diretor Torgny Wickman e acabou tornando-se um cult movie.
Tive curiosidade de ver como Lars Von Trier mostraria a compulsão sexual, se seria com a mesma seriedade que Steve McQueen em Shame (apesar do protagonista ser um homem), ou trataria a personagem apenas como uma mulher que gosta de sexo e por esta razão é chamada de ninfomaníaca. Existe uma clara diferença entre gostar de sexo, e ser viciado.
Sim, o filme é sobre compulsão e não há uma razão aparente para que Joe desenvolvesse essa dependência. Ela não procurava amor, ela não queria ser valorizada. Como a própria personagem diz em um grupo de apoio no Volume II: "preciso sentir algo dentro de mim, mesmo que seja uma tonelada de lixo.
Ela conhece Seligman, que escuta atentamente suas histórias, desde quando ela era uma criança e descobriu sua genitália, até sua fase jovem em que ela e uma amiga se prostituíam em trens para conseguir saquinhos de chocolate.
As intervenções de Seligman são interessantes. No entanto, o encontro dos dois foi algo forçado. Quando Joe começa a falar, e Seligman intervém, isso logo nos remete a uma sessão terapêutica, ou melhor psicanalítica. Seligman é Freud e Joe sua paciente deitada e ferida em uma cama (divã).
No primeiro volume, Seligman faz paralelos interessantes entre a vida sexual de Joe, a pescaria, música e literatura. Ele é um homem sozinho assim como Joe, e o que os dois têm em comum? Joe é viciada em sexo e seu ouvinte em livros. Percebemos então que cada ser humano busca o prazer, a satisfação, o gozo, e isto não esta ligado ao ato sexual.
Os dois volumes têm seus pontos altos e baixos. Creio que no primeiro filme, o relacionamento entre Joe e a mãe poderia ter sido mais explorado, esse foi um dos maiores "buracos" que encontrei no roteiro. O pai era presente, enquanto que a mãe sequer teve qualquer contribuição na formação da personagem. Mãe ausente? Indiferente? Trier fez isto de propósito? Fica à critério de quem assiste...
A personagem foi bem construída. É ambígua. Em um momento sente vergonha de si mesma, sofre, chora, e depois sente-se no direito de "desfrutar sua luxúria". Ela passa por crises de abstinência, ela não ama, ela é o que ela mesma se define: "uma marginal sexual".
Com o tempo ela não sente mais prazer e sua busca incessante a leva para um caminho de desespero, até  perder completamente o medo e os escrúpulos. A ferida na vagina (uma referência de Lars a "Anticristo"), Joe explica que esta ferida surgiu devido às constantes idas a um praticamente de sadomasoquismo que ela conheceu durante sua procura incansável pelo orgasmo. O sangramento no clitóris pode ser uma simbologia usada por Lars Von Trier como forma de punição por não ter sido boa esposa e mãe. Algumas aldeias africanas cortam o clitóris da menina para que o prazer lhe seja negado, Joe "corta" o seu prazer, embora necessite dele.


É um filme sobre sexo. Sexo que pode ser usado para conquistar, magoar, chantagear. Sexo que move o mundo. Mas quando digo isso não me refiro a uma mulher que usa sua sensualidade para ter o que quer. Trata-se de uma mulher que sofre com sua solidão porque não se encaixa na sociedade, é egoísta e às vezes fria, o que pode gerar antipatia em algumas pessoas, mas não nos esqueçamos de que Joe é compulsiva!
Com diálogos interessantes, algumas cenas ocas, uma bela fotografia, Lars Von Trier conseguiu ir além da patologia. Ninfomaníaca mexe com nosso emocional e coloca em xeque os valores da sociedade.

Cotação: 4 estrelas

Link para assistir o Volume I: Ninfomaníaca - Volume I
Link para assistir o Volume II: Ninfomaníaca - Volume II

sábado, 15 de março de 2014

Heli



Dirigido pelo cineasta mexicano Amat Escalante, vencedor do prêmio de melhor diretor no festival de Cannes de 2013 por Heli, o filme se passa em uma cidade no interior do México dominada pelo tráfico de drogas. O personagem Heli é um rapaz que vive em uma pequena casa com sua esposa, filho, sua irmã Estela de 12 anos e seu pai.
Todos os problemas começam a aparecer por causa do namoro de Estela e Beto, um cadete que se envolve com o traficantes. Heli então vê sua vida mudar drasticamente.
Este é um filme para quem tem estômago forte. Escalante conseguiu produzir um filme que chocou pela sua crueza, não poupou nas cenas de violência nem mesmo com animais, e você assiste àquilo tudo e se pergunta se coisas do tipo acontecem.
Não acho que o diretor tenha querido mostrar o pior do México. Acredito que sua intenção era mostrar o que acontece no mundo inteiro: a garotinha que se apaixona por um rapaz mais velho, sonha em se casar como em um conto de fadas, não mede esforços para ajuda-lo (mesmo que isso implique colocar a segurança da sua família em risco), para só depois perceber que a realidade é bem diferente.
O filme choca em todos os sentidos. A fotografia árida e ácida, a falta de perspectiva dos personagens, até mesmo o tipo físico de Estela. Ela tem corpo de criança, seu namorado já é um homem e quer ter relações sexuais com ela, mas ela não quer. Quer casar. Quer viver um sonho encantado. Sua mentalidade ainda é de uma menina.
Falo de Estela, porque apesar do filme levar o nome de Heli, a história basicamente baseia-se nesse romance idealizado da menina e da violência. Vejo que na verdade, as duas são protagonistas. O que antes era amor e sonho, apesar da pobreza, reduziu-se ao ódio, desespero e sede de vingança.
Escalante não poupou nas cenas de tortura, nem mesmo quando o cachorrinho de Estela é estrangulado bem na sua frente! No entanto, outras cenas poderiam ter sido facilmente descartadas.
Heli é o retrato da pobreza, da violência. Hipocrisia dizer que as cenas são desnecessárias, se convivemos com isso todos os dias. A questão é que fingimos não acontecer. É sim um filme polêmico que eu não indico para todos. Mas ainda assim consigo enxergar beleza em meio ao caos que ainda estou digerindo, porque a arte serve para refletirmos sobre nossa realidade, nosso contexto e nossa própria existência.

Cotação: 3 estrelas

Link para assistir online: Heli

Obs: Toca dos Cinéfilos agora é site. Se você quiser assistir este e outros filmes, basta se registrar. É fácil, rápido e gratuito.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

12 Anos de Escravidão



Filme de 2013 dirigido por Steve McQueen (Shame), a obra é baseada em fatos reais e conta a história de Solomon Northup (brilhantemente interpretado pelo ator britânico Chiwetel Ejiofor), um negro livre que vivia com sua mulher e filhos na época da escravidão dos EUA, até receber uma proposta falsa de trabalho e ser sequestrado para ser vendido como escravo para o então impiedoso fazendeiro (Michael Fassbender).
Começa então para Solomon 12 anos de trabalhos forçados e a luta para provar que ele não era um escravo.
Creio que qualquer história que relate torturas com seres humanos sempre é emocionante e chocante. Este filme não é mais um filme sobre escravidão. A história de Solomon e esses sequestros que aconteceram são pouco conhecidos, mas quando o filme termina você chega à conclusão de que isso não era difícil de acontecer. Motivo: negros livres, com cartas de alforria não representava muita coisa em uma época que negro não era gente. Imagino que muitos passaram por necessidade (o que não era o caso de Solomon, já que sabia ler e escrever e ainda era um exímio violonista), mas imaginemos aqui no Brasil com o fim da escravidão. É sabido que muitos ex-escravos não tinham para onde ir e não conseguiam emprego.
Imagino que o mesmo aconteceu naquela época. Muitos negros livres cheios de falsas esperanças foram vítimas desses sequestros, algo brutal, toda forma de escravidão e tortura é brutal.
O filme foi muito bem construído e dirigido, sem cair na pieguice. Steve McQueen conseguiu dar realismo às cenas de açoite e aos trabalhos forçados aos quais os escravos eram submetidos.
Vemos Solomon e pensamos que ele esta resignado com aquela vida. Mas Chiwetel Ejiofor tem os olhos tão expressivos, e em muitas cenas ele não diz nada, aliás, ele diz, mas diz com os olhos e nós entendemos o que eles falam: "eu vou lutar, vou ver minha família de novo. Isso vai acabar." Sua expressão facial é algo fantástica!
O cenário e o figurino também merecem destaque. Tudo foi minuciosamente pensado para retratar uma parte da história que merecia ser contada. E tenho que destacar o pequeno papel de Brad Pitt que interpreta um abolicionista, e também foi um dos produtores do filme.
Não tenho dúvidas de que Steve McQueen já entrou para o roll dos grandes diretores. Depois do excelente "Shame" eu não poderia esperar nada inferior que viesse dele, sem sombra de dúvidas um grande cineasta que ousou contar a história de um grande homem que foi Solomon e que vale à pena conhecer.

"Eu não quero sobreviver, eu quero viver!"

Cotação: 4 estrelas
Link para assistir online: 12 Anos de Escravidão

sábado, 25 de janeiro de 2014

Azul é a cor mais quente



Filme francês de 2013 dirigido por Abdellatif Kechiche ( Vênus Negra),estrelado por Adèle Exachorpolous e Léa Seydux, a obra é uma adaptação dos quadrinhos escritos e desenhadas por Julie Maroh, e tem o título original de "Le Blue este une Couleur Chade".
A história é sobre Adèle que se apaixona por Emma, quando andando tranquilamente pelas ruas de Paris, ela encontra uma garota com o cabelo azul e a partir desse momento, Adéle fica fixada na misteriosa mulher com madeixas coloridas, até que finalmente o romance concreto acontece.
Bem, para quem não sabe, "Azul é a cor mais quente" foi um dos filmes mais aclamados de 2013. Entrou para a lista do ano como "um dos melhores", ganhou vários prêmios e devo destacar aqui primeiramente a atuação brilhante de Adèle Exachorpolous, uma jovem atriz que desempenhou sua Adèle de forma madura, dedicada e muito competente. Não há dúvidas de que é uma atriz promissora.
Originalmente o nome do filme é "La vie d'Adèle", o que em tradução livre signficaria "A vida de Adèle", é um forte paralelo com o livro que a adolescente esta lendo no início: "A vida de Marianne", e que segundo ela mesma estaria adorando o livro e não sabe exatamente explicar a razão, mas percebe-se uma certa identificação entre Adèle e Marianne. Um outro paralelo interessante entre a literatura e o cinema, Adèle aprofundada nos estudos enquanto o professor discorria sobre um livro que aparentemente falava do primeiro amor, e em seguida vemos a jovem completamente fascinada por Emma. A troca de olhares foi recíproca.
Quero deixar claro que não conheço a HQ e nem a filmografia de Kechiche. Por isso não posso dizer o quanto o filme foi fiel aos quadrinhos. Não se trata de um filme pelos direitos dos casais homoafetivos, ele não tem esta linha política, a história nada mais é que a relação entre duas meninas que se apaixonam e o declínio desta paixão. Nada de novo. O que foi retratado para as telas do cinema foi o trivial, e devo ser honesta: existem vários filmes que discutem as relações sejam elas heterossexuais ou homoafetivas de uma forma bem mais interessante. Obra longa demais para retratar o óbvio.
Adèle é uma menina que torna-se mulher do dia para a noite, mas particularmente não consegui enxergar esse amadurecimento na personagem. Sempre com o mesmo cabelo desalinhado, parece deslocada de todos os lugares que frequenta, é uma personagem que parece estar buscando algo.
Diferentemente, Emma já é uma mulher mais velha, faz faculdade de belas artes, é intelectualizada, resolvida sexualmente e sabe onde quer chegar profissionalmente. E era isso que ela queria de Adèle: que ela buscasse, ousasse. Mas as duas já morando juntas, Adèle se contentava em cozinhar para sua amada e trabalhar como professora. Nada contra os professores, até porque sou uma! Mas logo no início do filme o que vi foi uma garota com opinião, que escrevia, gostava de ler, e isso parece ter sido deixado de lado quando se envolveu com Emma. 
A jovem perdida vinha de uma família tradicional. E eu gostaria de ter visto como foi o rompimento com esse tradicionalismo. E aí fica à cargo de quem assiste interpretar: será que ela enfrentou a família ou mentiu para morar com Emma?
Um ponto delicado que pretendo discutir agora ( e para quem viu o filme deve estar louco para ler), é sobre as polêmicas cenas de sexo entre duas garotas. Quem acompanha meu trabalho, sabe que já assisti vários filmes com temática LGBT (alguns excelentes por sinal), por isso, nada contra as cenas de sexo. Eram necessárias para o enredo, para o contexto.
O que questiono foi a exposição dos corpos das atrizes, e cenas que são dignas de filme pornô. Cenas mal dirigidas, que causam sim um certo desconforto porque você vai assistir um drama e de repente se depara com sexo puramente explícito! Desnecessário? Sim. No caso de "Azul é a cor mais quente", a insinuação ao sexo cairia melhor, e devo destacar aqui que a própria autora dos quadrinhos não aprovou as tais cenas, mas elas foram ao ar assim mesmo porque segundo consta Julie Maroh não foi consultada em nenhum momento durante as gravações do filme.
Alguns podem achar que estou sendo hipócrita, mas não estou. Não tenho problemas com sexo, tenho problemas com excesso, e o que aconteceu com "Azul é a cor mais quente", é que duas mulheres fazendo amor ganhou muito mais destaque que outros assuntos que o filme aborda. Como por exemplo a discriminação que Adèle sofre no colégio simplesmente por conversar com Emma. Não vi nenhum comentário que abordasse tal cena. Os comentários tanto de mulheres quanto de homens é sobre a excitação em ver as duas. As atrizes até fizeram um ensaio "lesbian chic". Cristo! Não sei qual é a orientação sexual das meninas e nem me importa, mas honestamente? Discutir um único ponto sobre um filme que tem quase três horas de duração, isso me faz perguntar se é apenas fantasia ou se o lesbianismo virou "modinha". Seja qual for a resposta, é deprimente.
Lembro-me quando foi lançado "O Segredo de Brockbreak Montain" do diretor Ang Lee. Gerou muita polêmica e piadinhas sobre o amor entre os dois cowboys, e o filme nada mais é que uma história de amor. PONTO. Mas aí tiveram os desocupados de plantão que fizeram uma montagem com o cartaz do filme colocando duas atrizes, aí não haveria piada. E isto sim é hipocrisia. Mulheres lésbicas viraram fantasia de 90% dos homens, e é lamentável que filmes com temáticas LGBT sejam vistos para satisfazer onanistas de plantão. (REDTUBE esta aí para isso).
Não sou de ler críticas de filmes porque gosto de formar minha própria opinião. Mas uma em especial que foi publicada no site Pragmatismo Político me chamou atenção até a metade. Tudo estava indo bem, quando me deparo com a seguinte frase: "não há nada mais bonito que duas mulheres fazendo algo bonito".
Natalie Portman disse certa vez: " a indústria do cinema é predominantemente masculina, e nós atrizes temos que nos submeter". Esta frase cabe perfeitamente em "Azul é a cor mais quente". Exposição em demasia de corpos femininos nus. Nada contra a nudez e o sexo, mas o excesso fica cansativo, tira o foco da obra e acaba sendo enfadonho. No filme brasileiro "Como Esquecer", Ana Paula Arósio faz o papel de uma professora lésbica que foi abandonada pela companheira. Há um beijo lésbico e uma cena muito sutil entre ela e uma pintora. Não precisou de mais nada para que o expectador compreendesse a mensagem sem que isso desfocasse o contexto do filme. Palmas!
"Azul é a cor mais quente" não merecia estar na lista dos melhores de 2013. Filme longo para contar uma história trivial, mas que poderia ter um roteiro mais interessante e que pudesse proporcionar discussões acerca da homossexualidade e das relações amorosas sejam héteros ou homos.

Cotação: 2 estrelas

Link para assistir online: Azul é a cor mais quente


sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Luzes da Ribalta


"As luzes da Ribalta que a velhice abandona quando a juventude entra em cena. A história de uma bailarina e de um palhaço.."

E é assim que se inicia este espetáculo dirigido por Chaplin em 1952, com uma das trilhas sonoras mais belas que já ouvi. Realmente não sei se conseguirei fazer um comentário à altura de Luzes da Ribalta porque creio eu que Chaplin tenha se superado nesta obra, não só como o grande cineasta que foi, mas também como ator e compositor de uma canção que certamente marcou os áureos tempos da sétima arte.
A história se passa em 1914 e Chaplin despido do seu famoso personagem "Carlitos", interpreta Calveiro, um ex-comediante que fez muito sucesso nos teatros, mas que foi esquecido com o tempo por causa da velhice. Morando em uma velha pensão, ele chega bêbado e sente cheiro de gás vindo de um dos quartos, ele então arromba a porta e encontra uma bela jovem: Theresa Ambrose (Claire Bloom) desacordada e a tira dali. Com a ajuda de um médico, Calvero a leva para o seu quarto e quando Theresa desperta ele pergunta a razão dela ter querido se matar. Ela então conta que seu sonho era ser uma bailarina, mas que agora suas pernas estavam paralisadas. Calveiro promete ajuda-la, mas ele também será ajudado.
Para quem gosta de Chaplin, ou pelo menos o admira e reconhece o valor que ele tem para o cinema, sabe que este é um trabalho completamente diferente dos outros. Trata-se de um drama e como Chaplin é mais conhecido pelas comédias que realizou, Luzes da Ribalta é um primor não só por mostrar a versatilidade de um gênio, porque Chaplin interpretando um artista desiludido, deprimido, mas que ainda encontra forças para ser solidário com outra artista, isso só comprova que ele (Chaplin) podia fazer qualquer coisa, interpretar qualquer papel, escrever roteiros que marcaram o mundo do cinema, e ainda compor uma belíssima canção como a de Luzes da Ribalta.
Creio eu que este seja mais um daqueles filmes atemporais. Será que o personagem Calveiro não seria o próprio Chaplin, sabendo que a velhice estava chegando, o cinema estava tomando novos rumos e ele teria que se despedir de Carlitos? Será que em 1952 as pessoas ainda riam do nobre vagabundo como nos tempos do cinema mudo? 
O filme me fez pensar também em tantos artistas que contribuíram para a arte, mas acabaram caindo no esquecimento, morrendo na miséria. Como a arte pode ser bela e ao mesmo tempo cruel! Decidi escrever sobre Chaplin no blog, e as postagens quase não tiveram visualizações! Não caro leitor, eu não estou cobrando que você curta minha página e nem siga meu blog. Mas é fato que se eu estivesse comentando sobre algum filme pipoca que esta em cartaz, eu já teria mil visualizações!
Nada contra filme pipoca, não me interpretem mal. Mas um gênio como Chaplin que deixou um legado importantíssimo para o cinema, e que inspirou tantos artistas da atualidade, merece ser homenageado sempre.
Luzes da Ribalta é a mais bela demonstração de amor à arte. O amor à música, dança, comédia, ao teatro, ao público! É uma linda e explícita demonstração de amor.

Cotação: 5 estrelas

Link para assistir online: Luzes da Ribalta

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Um Pouco de Charlie Chaplin



Bem, eu tinha prometido na page que se conseguisse atingir trezentos curtidores, faria uma homenagem a Chaplin. Eis que já ultrapassou de trezentos e estou atrasada com minha promessa! Mil perdões!
Primeiramente é impossível falar em cinema sem falar em Chaplin. Foram mais de 75 anos dedicados à  arte, desde quando era criança quando ainda se apresentava em teatros do Reino Unido, até a sua morte aos 88 anos de idade. E não há o que dizer. Esse baixinho, magricela em cena  tornava -se um gigante, um monstro!
Nascido Charles Spencer Chaplin Jr. em Londres no dia 16 de abril de 1889, Chaplin era diretor, roteirista, compositor das próprias trilhas sonoras, produtor, além de financiar seus próprios filmes. Em sua extensa obra podemos destacar: Luzes da Cidade, Tempos Modernos, Em Busca do Ouro, O Garoto, O Grande Ditador, Luzes da Ribalta, dentre outros.
O rei do cinema mudo criou um personagem cativante : o Carlitos, ou o Vagabundo. Quem nunca o viu caracterizado com um paletó puído, calça e sapatos em tamanhos maiores, a cartola, uma bengala e o famoso bigodinho? Este simpático personagem cativou o mundo inteiro com suas maneiras requintadas, seu ar pueril, e suas confusões sempre regadas à trapalhadas e a velha comédia que só mesmo Chaplin sabia fazer, e que nos arrancam risos até hoje!


Ouso dizer que seus filmes são atemporais. Este cineasta estava à frente do seu tempo, mesmo com sua comédia pastelão, ele sempre tinha o que dizer, algo que nos leva a refletir até mesmo na atualidade, por isso digo que seu cinema nunca é velho demais. Você pode assistir Tempos Modernos e conseguirá associar muitos aspectos com nossa realidade.
Por sua contribuição ao cinema, Chaplin recebeu vários títulos ainda em vida. (Cavaleiro do Império Britânico) e Francês (Légion d ' Honnoeur), pela Universidade de Oxford (Doutor Honoris Causa) e pela Academia de Artes e e Ciências Cinematográficas dos EUA (Oscar especial pelo conjunto da obra em 1972).
Em 25 de dezembro de 1977 aos 88 anos, Chapin sofre um derrame cerebral em sua casa na Inglaterra. Ele havia deixado os EUA há muitos anos por ser esquerdista e por sofrer perseguição da imprensa marrom.
Não deixe de conhecer um pouco da obra deste gênio inimitável, mas que certamente influenciou inúmeros artistas! E não deixem de conferir o comentário do grande clássico: Luzes da Ribalta!

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O Grande Ditador: Um Convite de Chaplin para repensarmos os tempos atuais.


Dispensando qualquer apresentação, esta obra-prima de 1940 escrita e dirigida pelo mestre Charles Chaplin, nada mais é que uma crítica explícita ao nazismo e fascismo. Uma crítica inteligente e muito bem humorada como só Carlitos sabia fazer.
Chaplin encarna um ditador alemão Hynkel e um barbeiro judeu sósia do ditador. Os discursos de Hynkel contra a democracia além de serem engraçadas, muito me lembrou o discurso da nossa presidenta quando ela disse abertamente sobre a espionagem dos EUA: "Isso fere os direitos da democracia.", impossível não fazer esta associação.
E com irreverência e criatividade, Chaplin mostra a obsessão pelo poder do ditador, e isso fica claro na famosa cena em que ele brinca com o globo terrestre. A mensagem é clara: "quero ser o dono do mundo, ou já sou o dono do mundo, posso fazer com ele o que eu quiser". E a triste realidade dos judeus confinados nos guetos.
Mas por que esse ódio contra os judeus?
Teríamos que fazer um apanhado histórico. Os judeus são perseguidos desde os tempos de Cristo. O escritor e colunista do site Carta Maior Flávio Ricardo Vassoler escreveu em seu artigo que os judeus foram o bode-expiatório, o bode-expiatório para a inflação estratosférica, para todas as mazelas da sociedade. Culpem os judeus!
E agora, a quem devemos culpar? Na nossa atual sociedade, quem são as pessoas que devem ir para os campos de concentração? Os homossexuais? As feministas? Os comunistas? Ateus? Aqueles que pensam diferente e representam uma ameaça para o nosso governo? Ou para a nossa empresa? Os espinhos da sociedade?
Mesmo o filme sendo antigo, e algumas pessoas não gostando do gênero, acredito que ele nos convida a refletir sobre os regimes totalitários. Sendo assim, podemos classifica-lo como atemporal, ou seja, não existe época para assisti-lo, não existe tempo para pensar e repensar o passado e o futuro.
Se você não conhece o cinema de Chaplin, te faço um convite para que assista a este clássico e entenda porque Carlitos é tão cultuado! 

Cotação: 5 estrelas

Link para assistir online: O Grande Ditador

domingo, 27 de outubro de 2013

Perdas e Danos


Do mesmo diretor de "Menina Bonita" primeiro e polêmico filme de Brooke Shields, Perdas e Danos foi lançado em 1992 pelo cineasta francês Louis Malle. Estrelado por Jeremy Irons e Juliette Binoche, este poderia ser mais filme clichê sobre um homem mais velho, rico e importante que se vê sexualmente atraído pela noiva de seu filho.
No entanto, creio que o diferencial esteja certamente nos diálogos (ou na falta deles), que carregam dramas familiares. Mas é no silêncio que se encontra o jogo de sedução entre Stphen Fleming (Jeremy Irons) e Anna (Juliette Binoche).
As expressões faciais dos dois atores diante desta atração sexual não precisam de diálogos. E destaco aqui o excelente trabalho de Jeremy Irons que consegue transmitir desejo, culpa, medo, constrangimento, tantos sentimentos contraditórios somente com o olhar.
Anna é uma mulher bastante peculiar, quase não fala, mas é uma jovem intelectual que passou a infância percorrendo o mundo e presenciou uma grande tragédia ainda na adolescência. Cheia de atitude, gosta de ser livre, é o oposto de Ingrid (Miranda Richardson) esposa de Stphen. Uma típica dona-de-casa, que vive para o marido e os filhos e fica impressionada (e por que não dizer chocada?) com os pensamentos modernos e autônomos da nora.
Não posso negar que Anna foi uma personagem que me chamou bastante atenção por ser uma mulher bem à frente do seu tempo. Estamos falando aqui de um filme do início da década de 90, e quando se vê seduzida pelo próprio sogro, é ela quem toma iniciativa, é ela quem marca os encontros, ela quem diz até onde devem ir. Por que não dizer que é uma personagem absolutamente feminista?
Não estou com isto querendo defender a traição, o desejo avassalador coloca um homem diante de um dilema e uma mulher que sabia o que toda essa atração poderia provocar caso o romance fosse descoberto. E neste sentido o filme foi bastante realista em mostrar que eles poderiam sim desfrutar de uma vida a dois, deixar o sentimento fluir, no entanto, pessoas que eram importantes para eles, sobretudo para Stphen sofreriam e até mesmo o odiariam por esta escolha.
As cenas de sexo foram muito bem construídas, nada em demasia, nada explícito, tudo na medida. O sexo remetia aquilo que eles sentiam um pelo outro: desejo. Era uma relação selvagem, desesperada, apaixonada, instintiva. Corpos, suor, perda da noção de certo e errado, tudo absolutamente carnal e incontrolável.
Um filme sobre paixões avassaladoras e suas consequências. Destaque também para a atuação de Miranda Richardson, que no final saiu do papel de esposa perfeita e mostrou seu lado de mulher ferida, magoada. Sem dúvidas, após sua interpretação final, conseguimos compreender seu comportamento.

Cotação: 3/5 estrelas

Link para assistir online: Perdas e Danos

sábado, 19 de outubro de 2013

Camille Claudel, 1915



Dirigido pelo cineasta francês Bruno Dumont que também dirigiu a obra minimalista O Pecado de Hadewjich, não se trata de um remake do filme de 1988 estrelado por Isabelle Adjani como muitos pensaram quando saiu boatos de quem uma nova obra sobre a famosa escultora francesa seria rodada.
Em Camille Claudel,1915 encontramos uma mulher de meia-idade interpretada pela fantástica Juliette Binoche, já internada em um hospital psiquiátrico. Para quem não conhece a história de Camille, ela foi uma famosa escultora francesa, pupila e amante do também escultor Rodin. Vendo que Rodin não se casaria com ela, Camille decide desvincular seu trabalho e seu envolvimento do mestre e do homem que amava para seguir sua própria carreira.
No entanto, o rompimento com Rodin e a morte de seu pai que era o único familiar que apoiava seu talento, culminou na perda gradativa de sua sanidade, até que por fim seu irmão Paul Claudel decide interná-la em um sanatório. 
Caso tenha interesse em assistir e ler o comentário sobre o primeiro filme, segue o link: Camille Claudel: entre a genialidade e a loucura.
Gostaria de destacar aqui, que não cabe comparações nas atuações de Isabelle Adjani e Juliette Binoche tendo em vista que são duas atrizes francesas muito talentosas e que cada uma interpretou brilhantemente Camille Claudel nos dois momentos mais difíceis da sua vida.
Também não cabe aqui comparar as duas obras já que o filme de 1988 retrata a juventude da escultora seu ápice e seu declínio, já no filme Bruno Dumont o roteiro foi baseado nas correspondências que Camille trocou com seu irmão Paul e no seu lado médico.
Camille Claudel, 1915 foi rodado em um hospital psiquiátrico de verdade com doentes mentais de verdade. A sensibilidade do cineasta e de Juliette Binoche para lidar com o elenco de apoio é algo surpreendente! Às vezes sentimos que Binoche parece indiferente aos internos, mas não podemos nos esquecer de que ela é Camille e que aquele mundo não é para ela.
As horas parecem não passar para aquela mulher que sente-se oprimida, ela olha para o céu, a câmera focaliza a expressão de deslocamento de Juliette Binoche. Não é preciso dizer nada, entendemos o que ela sente.
O que dizer sobre seus momentos de angústia e esperança? Como não se emocionar? Os jardins do hospital parecem áridos e nada tem a ver com a arte daquela mulher que não conseguia mais esculpir, que foi exilada pela família, rejeitada pelo único homem que amou.
Rodar o filme em um hospital psiquiátrico e ter como elenco de apoio doentes mentais, não é caridade. Isso é tentar ser o mais realista possível para realizar um filme que pode ser considerado histórico sobre uma grande personagem! Se você não conhece Camille Claudel, assista as duas obras e aprecie a vida e arte desta mulher que merece todo nosso respeito e admiração.

A falta de amor pode enlouquecer.

Cotação: 5 estrelas

Link para assistir online: Camille Claudel, 1915

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O Som ao Redor



Filme de 2012 dirigido e escrito por Kleber Mendonça Filho conhecido por produzir curtas como: Vinil Verde, Eletrodoméstica e Recife Frio, este é o primeiro longa de ficção do cineasta que sem sombra de dúvidas conseguiu a façanha de refazer o cinema, retratando a classe média como nunca tinha sido mostrada.
Trata-se sim de uma crítica à sociedade. Mas não a sociedade dos morros, do tráfico de drogas, dos presídios, como estamos acostumados a ver em filmes como Carandiru, Tropa de Elite e tantos outros que expõem tão bem os problemas de um Brasil oprimido e que levianamente são criticados por quem acha que cinema nacional resume-se a: favela, palavrões, tráfico, seca do nordeste.
O Som ao Redor mostra o cotidiano de uma rua de classe média no Recife. Aparentemente o que vemos realmente é o dia-a-dia dos personagens, nada demais. No entanto, logo no início do filme nos deparamos com fotos em preto e branco mostrando trabalhadores rurais, plantações de cana-de-açúcar, casarões antigos, e em seguida um condomínio moderno cheio de crianças brincando. É o ponto de partida da história e um belo contraste social!
A chegada de seguranças particulares muda a rotina da vizinhança. Uma vizinhança que parece ser comandado  por um coronel dos tempos antigos: Sr. Francisco (Waldemar José Solha) que é dono de vários imóveis na região e exerce grande influência entre os moradores.
Talvez tudo que eu escreva aqui já tenha sido escrito antes. E não é para menos, eu realmente nunca tinha visto a classe média como ponto central em um filme brasileiro. Geralmente vemos o imigrante nordestino, o bandido, a polícia, o morador de rua. Não que isto seja ruim, mas retratar um outro grupo de pessoas preocupado com a sua segurança, preocupado com o recebimento intacto da Revista Veja, é algo realmente novo.
A obra de Mendonça Filho tem essas nuances que podem passar despercebidas, mas que merecem ser discutidas.
Um outro ponto curioso é o do menino que escala as casas. Ele é mostrado em duas cenas: a primeira é quando Bia, incomodada com os latidos do cão, perde o sono e vai para a varanda. Ela então vê um garoto escalando os telhados de uma casa. 
Na outra cena, a filha de Bia sonha com vários meninos que sobem em árvores e em casas. Ela fica apavorada! 
Há uns anos atrás no Recife de fato existiu um "menino-aranha" que roubava os apartamentos escalando-os. Tiago João da Silva foi morto a tiros com 18 anos. Kleber Mendonça Filho recria essa personalidade que ficou tão popular no Recife, transformando-a em uma figura quase fantasmagórica. É o medo da classe média que vê sua segurança abalada, ou medo da ascensão dos que sempre foram oprimidos?
Quando o neto do Sr. Francisco vai visita-lo no antigo engenho podemos entender as fotos que são mostradas no início do filme e como Sr. Francisco conseguiu tantos imóveis. E o mais curioso, é que seu neto, o personagem mais simpático da trama é quem tem um pesadelo com a cachoeira da fazenda. Ele sabe que o patrimônio do avô e que um dia será dele, foi construído às custas de trabalhadores que deram o suor e certamente a vida pelo engenho.


Realmente não sei se consegui escrever uma crítica a altura do filme. Depois de assisti-lo entendi porque tem sido tão falado e esta sendo cotado para representar o Brasil no Oscar 2014.
O que posso afirmar é que se você tem aqueles velhos conceitos contra o cinema nacional, esta perdendo uma grande chance de assistir grandes obras como O Som ao Redor. Com Oscar ou sem Oscar não tenha dúvidas de que Kleber Mendonça Filho revela-se como um cineasta promissor e de que seu primogênito é uma reviravolta no nosso cinema.

Cotação: 5 estrelas

Link para assistir online: O Som ao Redor

terça-feira, 24 de setembro de 2013

3096 Tage



Filme de 2013 dirigido pela cineasta americana Sherry Hormann (A Flor do Deserto), narra a história verídica de Natascha Kampusch, austríaca que foi sequestrada aos dez anos de idade por Wolgang Priklopil e conseguiu fugir do cativeiro com dezoito anos. 3096 Tage ou 3096 Dias sãos os dias que Natascha esteve presa. A obra de Sherry Hormann foi baseada no livro homônimo de Natascha Kampusch.
Elenco: Amelia Pidgeon (Natascha criança), Antonia Campbell - Hugnes (Natascha adolescente) e Thure Lindhardt (Wolfgang Priklopil).

A diretora Sherry Horman foi bastante corajosa quando aceitou este projeto. O sequestro que teve início em 1998 e só terminou em 2006, repercutiu o mundo inteiro e ainda gera polêmica, por isso Hormann enfrentou dificuldades quanto ao elenco. Nenhum ator austríaco ou alemão queria fazer o papel do sequestrador, muitos recusaram sem mesmo ler o roteiro, segundo a própria diretora. Thure Lindhardt e Antonia Campbell - Hugnes foram as escolhas perfeitas para interpretar este drama tenso.
Poucas falas, e com um desenrolar propositalmente lento, a trama começa com Natascha ainda criança (Amelia Pidgeon esteve excelente!), em uma discussão com a mãe ela sai aborrecida para a escola e durante seu trajeto Wolfgang a leva em uma Van branca.
Não é confortável ver uma criança sendo maltratada, e já adolescente sofrendo todos os tipos de abusos físicos e psicológicos. A caracterização da atriz Antonia Campbell - Hugnes foi assombrosa! Antonia tem 30 anos, e teve que emagrecer muito para interpretar Natascha. Seu aspecto anoréxico, a fragilidade de um corpo de menina é algo que imediatamente nos faz pensar: "essa garota deve ter tido uma força psicológica muito grande para sobreviver durante oito anos enclausurada e sofrendo todo tipo de violência, caso contrário teria morrido", e as duas atrizes fizeram um belo trabalho ao transmitir essa força, e vontade de viver com um olhar ora determinado, ora amedrontado, triste, feliz (sim, existiram momentos felizes na memória de Natascha).


Já Thure Lindhardt incorporou o papel do típico vilão frio, calculista, sem culpa nem sentimentos, embora ele tenha proporcionado alguns momentos de ternura e alegria para a sua prisioneira. Tanto o personagem de Natascha quanto o de Wolfgang carregam bastante carga emocional.
Esteticamente o filme é claustrofóbico e desconfortável. A produção foi muito cuidadosa em recriar o ambiente em que Natascha ficou confinada: a casa, a cela, o vestido que ela usava no dia do sequestro, o contraste de luzes quando a garota ganha alguns "privilégios" como por exemplo, sair com seu algoz, tudo isso contribuiu para entendermos o sentimento que ela tinha quando estava presa e em "liberdade". Claro que é uma liberdade ilusória porque isso não diminui a tensão de ter o sequestrador sempre por perto.
Explicar porque alguém mantém uma pessoa em cárcere privado durante oito anos não é o objetivo da película. O filme  é um relato forte e impactante de uma menina que teve sua infância e adolescência perdidas.

Cotação: Quatro Estrelas

Link para assistir online:  3096 Tage

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Respeitável Público: O Palhaço!



Benjamim (Selton Mello) trabalha no circo Esperança e junto com seu pai Valdemar (Paulo José) formam a dupla de palhaços Pangaré e Puro Sangue. Benjamim esta enfrentando uma crise existencial, não sabe se é essa vida circense que quer levar, e terá que decidir entre seguir seu próprio caminho ou continuar com a trupe.
Filme de 2011 dirigido por Selton Mello (Final Feliz). Este é seu segundo trabalho como diretor.
Esse é outro filme que certamente jamais irei me perdoar por ter demorado tanto tempo para assistir. Encantador definiria esta obra dirigida por Selton Mello com roteiro também de Selton Mello e Marcelo Vindicatto. 
De uma simplicidade e magia contagiantes o filme se propõe a perguntar: qual o meu lugar no mundo? O que estou fazendo tem sentindo para mim? São esses questionamentos que fazem com que Benjamim (Selton Mello, brilhante como sempre!) queira buscar um outro estilo de vida, suas dúvidas sobre seu talento como artista circense ficam tão nítidas que Mello consegue expressar toda essa aparente apatia somente com a voz.
E o que dizer de Paulo José? Paulo José é um grande ator brasileiro que mesmo com sua doença (mal de Parkinson) conseguiu desempenhar muito bem o papel do palhaço Puro Sangue, e seu olhar paterno para o filho Benjamim é comovente.


E é com muito orgulho que devo dizer que o filme faz menções a cidades do interior de Minas Gerais (meu Estado querido, minha terra amada), cidades como Passos (terra natal de Selton Mello) e Montes Claros são vistas em placas, cidades que conheço bem e poder escutar o sotaque do meu Estado em um filme sem que isso se torne pejorativo, é bom demais da conta!
Cheio de cores e luzes, aquele humor infante que me remeteu a infância de outrora quando eu me debulhava em lágrimas assistindo Os Saltimbancos dos Trapalhões, isso me fez pensar na delicadeza e profundidade em um único filme! Não foi à toa que ele foi tão bem recebido pelo público, pelos críticos e rendeu uma premiação de melhor diretor para Selton Mello no festival de Gramado. Muito Justo!
Este realmente é um grande filme que conta com com um elenco muito bom, e um artista que tenho muito orgulho em dizer que é brasileiro e mais ainda! É mineiro! Selton Mello nasceu para o cinema, ou o cinema nasceu para ele?


Se você acha que o cinema brasileiro resume-se às favelas, tráfico de drogas e às famigeradas comédias românticas da Globo Produções, sugiro desfaça esses pensamentos porque decididamente O Palhaço e tantos outros filmes (que pretendo comentar em breve) estão aí para mostrar o contrário. O Brasil tem uma forma peculiar de fazer cinema, assim como a Argentina, Itália, Espanha, EUA, etc, nós temos nossa própria cultura que deve ser valorizada. Entristece-me bastante quando escuto alguém dizer que não gosta do cinema nacional, no meu ponto de vista é não gostar de ótimos roteiristas, ótimos diretores e ótimos atores, e posso garantir que O Palhaço vai fazer você chorar e aplaudir de pé!
Livre-se dos preconceitos e assista este espetáculo singelo, puro, e apaixonadamente tocante dirigido, escrito e protagonizado por um dos melhores atores de sua geração. Senhoras e Senhores: Selton Mello.

Link para assistir online: O Palhaço

Cotação: 5 estrelas

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Nada Pessoal



Uma jovem recém-separada (Lotee Verbeeck) decide sair da cidade e perambular pelo oeste da Irlanda, vivendo apenas com o que a natureza lhe proporciona. Certo dia ela encontra um sítio cujo dono é Martin (Stephen Rea) e ele lhe oferece emprego no jardim em troca de comida. Arredia, a moça aceita com a condição de nunca fazerem perguntas pessoais.
Filme de 2009 escrito e dirigido pela polonesa Urzula Antoniak (Code Blue).
Urzula Antoniak conseguiu tocar em dois pontos que são difíceis para o ser humano: o recomeço e o início de uma relação. Ciclos da nossa vida que aparentemente podem ser banais, mas na verdade são bastante profundos e a cineasta conseguiu com um roteiro que praticamente não tem diálogo, tocar nessa ferida do homem : o medo do novo.
À princípio vemos a bela jovem em um apartamento que parece ser seu, olhando pela janela pessoas remexerem em caixas com objetos. Supomos então que sejam seus objetos já que o apartamento esta vazio. Ela passa os dedos sobre uma aliança e a tira.
Em seguida, ela já esta andando sozinha nas estradas, pedindo carona, acampando em lugares que parecem inóspitos (mas que não deixam de ser uma bela paisagem), comendo comida do lixo, correndo perigo nas estradas. Ela parece fugir. Mas fugir do que?
Tudo muda quando ela encontra o sítio de Martin. Um homem que assim como ela cultiva a solidão e aprecia a natureza. Ela começa a trabalhar para ele em troca de comida, nada de perguntas pessoais, nenhuma intimidade, a jovem parece não querer se abrir, mas também parece assustada, não quer se apegar e ser abandonada novamente.
Com o tempo uma relação começa a crescer de  forma bastante peculiar. Não é como em outros filmes em que as pessoas se conhecem conversando. Martin e a jovem criam um vínculo a partir de coisas concretas, e assim um vai ganhando o respeito e a confiança do outro. 
Isso nos faz pensar em como estabelecemos nossas relações. Martin não sabia o nome da jovem (até um certo momento), no entanto, ambos estavam visivelmente apaixonados. Uma relação madura que foi crescendo dia após dia e vencendo o medo de perder, de recomeçar.
Stephen Rea e Lotee Verbeeck emocionam com suas atuações. Não é preciso nenhum diálogo, não é preciso saber quem são, os olhares, os dedos que roçam, a música que toca, a retribuição de carinho, tudo tão minimalista e singelo, mas ao mesmo tempo poético! 


É o ciclo da vida, o eterno recomeçar, o depreendimento do passado, uma nova chance, a coragem. Nunca um "ei você!" soou tão romântico.

Link para assistir online: Nada Pessoal

Cotação: 5 estrelas

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Beleza Americana: A Beleza da Mentira e das Aparências



Em uma cidade no interior dos EUA moram duas famílias: uma delas vive um relacionamento extremamente falso. O casal parece ser dois estranhos, Lester (Kevin Spacey) é um homem conformado com uma vida que nunca quis. Sua esposa Carolyn (Annette Bening) é uma corretora de imóveis que só pensa em ter sucesso profissional, eles têm uma filha adolescente Jane (Thora Birch) que os odeia, sobretudo o pai sem uma razão aparente.
Os novos vizinhos mudam-se e parecem ser também uma família comum. O coronel da marinha Fitts (Chris Cooper) é rigoroso com sua esposa Bárbara ( Allison Janey) e seu filho Ricky ( Wess Bentley), ele mantém a casa como se fosse um quartel general, além de ser homofóbico e opressor.
Certa noite, Lester encanta-se pela melhor amiga de sua filha, Angela ( Mena Suvari), e decide fazer mudanças radicais na sua vida, enquanto Ricky e Jane iniciam um romance.
Filme de 1999 dirigido por Sam Mendes (Foi Apenas um Sonho). Ganhou o Oscar de melhor filme, melhor diretor, melhor ator (Kevin Spacey), melhor roteiro (Alan Ball).
Já mencionei aqui o quanto acho este filme fantástico. Ele consegue tocar na ferida do ser humano de uma forma poética, com um roteiro que simplesmente nos faz ter vergonha de ser quem somos.
Confesso que é preciso sim ter muita sensibilidade para captar as nuances do filme que às vezes podem parecer banais, mas não são. Todo o elenco esta afiadíssimo, mas destaco aqui as atuações de Kevin Spacey que merecidamente ganhou o Oscar, e de Annette Bening que faz o papel da insuportável Carolyn.
Juntos eles formaram um casal que eram dois desconhecidos, Carolyn só se importava com as aparências e Lester estava cansado do emprego e de toda aquela vida rasa que ele levava. Perto da filha e da esposa ele se sentia um perdedor, Kevin Spacey esteve ótimo interpretando o típico homem "preso a algemas".
É interessante observar como a postura de Lester vai mudando ao longo do filme. E quando falo postura, me refiro à postura corporal mesmo. No início vemos um homem meio corcunda, cabisbaixo, e que para ele a melhor hora do dia era quando se trancava no banheiro e se masturbava, parecia que o peso do mundo estava sobre suas costas, um peso que ele era obrigado a carregar, a suportar.
Tudo muda quando ele conhece Ricky, que por ser jovem e desistir de um emprego bem na sua frente,  faz com que Lester começe a repensar sua vida. Mas é em um jogo de basquete, durante uma apresentação de dança da sua filha que ele fica completamente fascinado por Ângela, e as fantasias que ele começa a ter com ela sempre coberta por pétalas de rosas, uma rosa que sua esposa cultivava no jardim e que existe nos EUA, uma flor muito peculiar que não tem espinhos e nem perfume, uma perfeita metáfora do ser humano vazio. Segundo as palavras do próprio Lester: "espetacular".


E é aí que as verdadeiras mudanças começam a acontecer. Lester larga o emprego, começa a malhar e fumar baseado, um homem visivelmente cansado de aparências e que queria viver como se cada dia fosse o último da sua vida.
Todos os personagens têm algo a esconder. Todos vivem de aparências, no entanto, mesmo este sendo o tema central do filme, ele também fala da coragem de recomeçar, de ser transparente.
E quanto ao coronel opressor que vivia dentro do seu mundinho cheio de regras e preconceitos? O que ele escondia debaixo daquela carcaça opressora?
Acredito que este seja o melhor trabalho de Sam Mendes. Roteiro, atuações consistentes, trilha sonora, fotografia, absolutamente tudo se encaixou culminando em uma obra-prima feita exclusivamente para repensar nossa postura diante da vida. Impossível ser o mesmo depois de assistir Beleza Americana.

Link para assistir online: Beleza Americana

Cotação: 5 estrelas



quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Réquiem Para um Sonho



Quatro personagens sonham com um futuro promissor: Sara Goldfarb (Ellen Burstyn) é viciada em TV e quer emagrecer para que seu vestido preferido lhe sirva e ela possa participar de um programa televisivo, obstinada, Sara recorre a um médico que lhe receita anfetaminas trazendo consequências físicas e psicológicas com o passar do tempo.
Sara é mãe de Harold (Jared Leto) que é namorado de Marion Silver (Jennifer Connelly) o casal sonha em abrir uma loja de roupas, mas eles tem mais que o sonho em comum, tem também o vício pela heroína.
Tyrone (Marlon Wayans) quer ter paz paz e sossego, mas também é viciado em heroína.
Filme de 2000 dirigido por Darren Aronofsky (Cisne Negro). Baseado no livro de Hubert Selby Jr.
Réquiem segundo o dicionário Priberam quer dizer "descanso, repouso", mas pode ser também uma música que era utilizada na antiguidade para os mortos.
Bem, comecei analisando o título da obra porque me parece bastante pertinente entendermos a razão do nome do filme e porque toca quase sempre a mesma canção.
Primeiramente devo dizer que acho este filme fantástico. Uma das primeiras películas de Aronofsky que já tinha se revelado um diretor promissor em "PI", no entanto Réquiem para um Sonho é menos experimental que seu antecessor e mesmo com o amadurecimento de Darren no cinema, existe uma coisa que lhe é peculiar: a câmera sempre focada nos personagens de maneira que consigamos enxergar o que o personagem enxerga e não o mundo visto de quem esta do lado de fora.


Além de Darren Aronofsky ser um diretor muito centrado (seu primeiro filme PI lhe rendeu o prêmio de melhor filme no festival de Sundance), ele consegue extrair o melhor dos atores. E Réquiem não me deixa mentir. Ellen Burstyn em uma atuação irretocável concorreu ao Oscar e injustamente perdeu. Jared Leto, Marlon Wayans que faziam filmes comerciais conseguiram se sair muito bem (Jared Leto teve que emagrecer muito para interpretar Harold). E Jennifer Connelly (sempre bela e convincente), arrisco a dizer que sua carreira tenha alavancado depois desse filme.
O filme não fala somente sobre o vício das drogas, fala também sobre o vício na TV, na comida. Interessante como mostra que as estações do ano estão intercaladas com as vidas dos quatro personagens: quatro estações, quatro pessoas correndo atrás de um sonho. Primavera e verão: Tyrone e Harold começam seu próprio negócio com drogas, entre Harold e Marion tudo esta perfeito. Sara começa a emagrecer tomando anfetaminas.
Outono e Inverno: Abstinência, crise no namoro, os extremos, a loucura.



"Tinham um ao outro e beijaram-se, e empurraram os medos um do outro para um canto, acreditando na luz do outro, no sonho do outro..."
Hubert Selby. Jr: autor do livro que deu origem ao filme

E por que dei a definição de réquiem no início da crítica? Toda vez que um dos personagens estava prestes a perder seu sonho, tocava a mesma canção. E particularmente achei a música bastante apropriada para as cenas, ela é triste, mas existe uma certa beleza nela, talvez a beleza de refletir sobre a morte dos nossos próprios sonhos.

Link para assistir online: Réquiem Para um Sonho

Cotação: 5 estrelas

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Saló ou os 120 Dias de Sodoma



Mais uma obra dirigida por Pier Paolo Pasolini em 1975, baseada no livro de Marquês de Sade "Os 120 Dias de Sodoma".
Quatro fascistas sequestram um grupo de jovens composto por homens e mulheres servindo como escravos sexuais, e sendo obrigados a praticarem os mais diferentes tipos de orgias.
Este foi o último filme de Pasolini e talvez o mais incompreendido. Alguns até o julgam como pornográfico, no entanto, mesmo sendo ainda leiga no que diz respeito sobre a obra desse gênio, atrevo-me a dizer que sua vida, seus ideais estavam intimamente ligados à sua filmografia. Já disse que todos os filmes de Pasolini eram de cunho politico, eram uma crítica escancarada à política italiana e a igreja. Pier Paolo Pasolini era homossexual, ateu e comunista.
Se você tem interesse em assistir Saló, sugiro que desfaça-se de suas crenças sejam elas religiosas ou  por qualquer outro motivo e tente assisti-lo sobre o ponto de vista político. Porque muito mais que "um festival de orgias" como dizem por aí, o filme é um grito político contra o fascismo e contra todos os regimes ditatoriais.
Os 16 jovens presos em um castelo por seus algozes, viviam sempre nus, e tendo que aceitar as duras regras impostas por seus ditadores. Há cenas de estupro, cenas escatológicas, sadismo, tortura, coisas que imagino que um prisioneiro de guerra, ou prisioneiro preso na época da ditadura tenha visto de perto.
E você pode perguntar, por que usar "cenas apelativas" para fazer um filme político? Além de Pasolini ser à favor da nudez, quando você assiste o filme livre de preconceitos, você percebe que o ser humano tem seu lado sádico, caso contrário o filme não estaria na lista dos filmes mais polêmicos da história, não?


Como já disse, Pasolini gostava de trabalhar com atores amadores. As cenas apesar causarem certo desconforto até hoje, foram muito bem dirigidas e construídas, mesmo sendo forte, acredito que Saló seja absolutamente necessário para qualquer cinéfilo. Continuo batendo na tecla de que existem filmes com violência explícita absolutamente descartáveis e que não sei porque cargas d'água são tão cultuados, e existem aqueles em que a violência é necessária para uma reflexão sobre a sociedade e sobre nós mesmos, afinal, Saló não se resume a um "festival de orgias." Se você espera isso de uma obra-prima como esta, sugiro que não assista.
Link para assistir online: Saló ou os 120 Dias de Sodoma

Cotação: 5 estrelas

sábado, 31 de agosto de 2013

O Evangelho Segundo São Mateus: O Evangelho Segundo Pasolini



Dirigido pelo italiano Pier Paolo Pasolini (Salò ou 120 Dias de Sodoma), a obra retrata fielmente a vida de Jesus Cristo segundo o Evangelho de São Mateus. Desde o seu nascimento, os milagres, suas pregações até sua morte e ressurreição.
Este filme me surpreendeu em vários aspectos. Primeiro porque para quem não conhece o diretor italiano Pasolini, atrevo-me a dizer que ele foi um gênio incompreendido não só na sua época como também nos dias atuais.
Pasolini era assumidamente homossexual, ateu e comunista. Todos os seus filmes são uma crítica à política italiana e à igreja católica que influenciava diretamente na política da época. Em Salò, sua última obra e talvez a mais criticada, Pasolini utilizou um conto do Marquês de Sade e transformou em uma grande denúncia não só contra o fascismo, mas contra todos os regimes ditatoriais. Infelizmente foi assassinado de forma brutal e a causa ainda é desconhecida, embora no filme Nerolio que retrata os últimos dias de vida do diretor, mostra que ele foi espancado até a morte por um garoto de programa, mas existe a hipótese de ter sido uma emboscada política.
Amado e odiado, Pasolini quando lançou O Evangelho Segundo São Mateus, muitos não entenderam já que ele era ateu. O que queria Pasolini com um filme que mostrava a vida de Jesus Cristo? Eu mesma fiquei surpresa. Se estamos falando de um diretor tão polêmico, esperava algo tão incompreendido quanto "A Última Tentação de Cristo" de Martin Scorsese.


No entanto, Pasolini fez uma obra belíssima, filmada em preto e branco com uma trilha sonora irretocável. O Jesus Cristo deste italiano não é como os dos americanos e europeus (representado sempre na figura de um homem loiro e com olhos azuis, como se no oriente-médio fosse fácil encontrar alguém com tais características). Pasolini escolheu um ator amador ( ele gostava de trabalhar com amadores), alto, moreno, com sobrancelhas grossas para fazer o papel de Jesus. Já saiu do estereótipo de vários filmes sobre a vida de Cristo que foram lançados nesta época.
Mas enfim, o que levou um ateu filmar a vida de Cristo? Modismo? Não. Depois de muito pensar, cheguei à conclusão que não foi por modismo e muito menos por fé, mas por política. Pasolini sendo comunista admirava a figura de Jesus Cristo que era um reacionário, lutava contra o sistema opressor, estava sempre à favor dos mais humildes e indefesos e não seria esta uma das premissas do comunismo?
Não estou querendo dizer com isto caro leitor que Jesus era comunista, mas talvez era para Pasolini, ou talvez Pasolini acreditava na existência de Cristo e admirava o trabalho e a coragem que ele teve, ironicamente morrendo por questões políticas.


Filmado em algumas terras áridas da Itália a fotografia é bela, olhares que expressam dor, alegria, a música que toca a alma. Pasolini conseguiu transformar a vida de Cristo em poesia. É uma obra imperdível de um dos maiores cineastas de todos os tempos e que ainda conta com a participação de sua mãe, Sussana Pasolini no personagem de Maria já com idade mais avançada.
Link para assistir online: O Evangelho Segundo São Mateus

Cotação: 5 estrelas

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Drácula de Bram Stoker: Romance e Luxúria



No ano de 1462, Constantinopla havia sido tomada. Na  Transilvânia surge um cavaleiro da Ordem dos Dragões para defender a cristandade na Europa. Draculea (Gary Oldman) parte em uma difícil missão deixando para trás sua amada Elizabeta (Winona Rider), que recebe a falsa notícia de que seu noivo tinha morrido. Desesperada ela suicida-se. A igreja a amaldiçoa e Draculea renuncia Deus e todos os seus princípios cristão tornando-se uma criatura das trevas perambulando por quase quatro séculos.
Quando contrata um advogado Jonathan (Keanu Reeves) para comprar alguns terrenos em Londres, descobre que Jonathan é noivo de Mina a reencarnação da sua Elisabeta. O excêntrico conde faz de Jonathan prisioneiro para reencontrar seu amor eterno.
Filme dirigido por Francis Ford Coppola (Apocalipse Now) de 1992, ganhador de três oscars: melhores efeitos sonoros, melhor figurino e melhor maquiagem.
Este filme já tem 23 anos e posso me arriscar a dizer que tornou-se um grande clássico dos anos 90. À priori, era para ser rodado para a TV, no entanto, o roteiro chegou nas mãos de Winona Rider e o entregou a Coppola, decidindo então dirigi-lo.
Confesso que nada entendo de vampiros, e não li o livro de Bram Stoker, por isso não poderei dizer se o roteiro foi ou não fiel ao livro. O que nós leigos sabemos é que vampiros são criaturas que vivem nas trevas, seres do mal e que devem ser combatidos com água benta, crucifixos, alho, estaca e uma parafernália sem fim.
Mesmo com a minha ignorância sobre o tema: "vampiros", acredito que Bram Stocker conseguiu dar um pouco de "humanidade" ao temível Conde e Coppola soube retratar de forma brilhante o que acabo de escrever. O sentimento que temos por Drácula é o de compaixão, e em alguns momentos sedução.


Toda a produção do filme, figurino, as músicas de fundo, maquiagem, o clima totalmente misterioso .contribuíram para que esse clássico se tornasse um romance gótico. Sim! Em alguns sites ele esta classificado como terror, mas é um drama sobre o amor romântico que atravessa séculos, que é imortal.
Vejo também como os personagens ficam divididos entre o bem e o mal. Algo tão típico do ser humano! O comportado Jonathan não resiste à tentação das três vampiras, Lucy a melhor amiga de Mina, se entrega a uma criatura que era meio lobo e meio humano, Mina mesmo sendo a reencarnação de Elisabeta, coloca em dúvidas seus sentimentos à respeito do noivo, mostrando-se completamente entregue ao "príncipe".
Percebo nessas nuances um certo paralelo que o autor do livro fez, com a nossa capacidade de nos sentirmos atraídos pelo obscuro. Não precisamos necessariamente fazer mal a ninguém, mas há um lado sádico ou masoquista que às vezes nos faz pensar: "será mesmo essa vida pacata e certinha que desejo para mim?"
Ainda contamos com a ilustre presença de Antony Hopkins no papel de Professor Van Helsing. Como podem ver o elenco é de peso, exceto pela famigerada atuação de Keanu Reeves, um ator que sempre esteve muito abaixo do esperado. Uma atuação medíocre!
A história além de romântica é pura luxúria! Coppola soube utilizar muito bem o encanto das belas mulheres, sem ser apelativo. As cenas são de uma sensualidade primorosa, e Gary Oldman apesar de ter desaparecido debaixo daquela maquiagem, tenho quase certeza de que seu Drácula permeia ainda a imaginação de muitas mulheres.


É um clássico que você não pode deixar de assistir. Link para assistir online: Drácula de Bram Stocker

Cotação: 4 estrelas