segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O Grande Ditador: Um Convite de Chaplin para repensarmos os tempos atuais.


Dispensando qualquer apresentação, esta obra-prima de 1940 escrita e dirigida pelo mestre Charles Chaplin, nada mais é que uma crítica explícita ao nazismo e fascismo. Uma crítica inteligente e muito bem humorada como só Carlitos sabia fazer.
Chaplin encarna um ditador alemão Hynkel e um barbeiro judeu sósia do ditador. Os discursos de Hynkel contra a democracia além de serem engraçadas, muito me lembrou o discurso da nossa presidenta quando ela disse abertamente sobre a espionagem dos EUA: "Isso fere os direitos da democracia.", impossível não fazer esta associação.
E com irreverência e criatividade, Chaplin mostra a obsessão pelo poder do ditador, e isso fica claro na famosa cena em que ele brinca com o globo terrestre. A mensagem é clara: "quero ser o dono do mundo, ou já sou o dono do mundo, posso fazer com ele o que eu quiser". E a triste realidade dos judeus confinados nos guetos.
Mas por que esse ódio contra os judeus?
Teríamos que fazer um apanhado histórico. Os judeus são perseguidos desde os tempos de Cristo. O escritor e colunista do site Carta Maior Flávio Ricardo Vassoler escreveu em seu artigo que os judeus foram o bode-expiatório, o bode-expiatório para a inflação estratosférica, para todas as mazelas da sociedade. Culpem os judeus!
E agora, a quem devemos culpar? Na nossa atual sociedade, quem são as pessoas que devem ir para os campos de concentração? Os homossexuais? As feministas? Os comunistas? Ateus? Aqueles que pensam diferente e representam uma ameaça para o nosso governo? Ou para a nossa empresa? Os espinhos da sociedade?
Mesmo o filme sendo antigo, e algumas pessoas não gostando do gênero, acredito que ele nos convida a refletir sobre os regimes totalitários. Sendo assim, podemos classifica-lo como atemporal, ou seja, não existe época para assisti-lo, não existe tempo para pensar e repensar o passado e o futuro.
Se você não conhece o cinema de Chaplin, te faço um convite para que assista a este clássico e entenda porque Carlitos é tão cultuado! 

Cotação: 5 estrelas

Link para assistir online: O Grande Ditador

domingo, 27 de outubro de 2013

Perdas e Danos


Do mesmo diretor de "Menina Bonita" primeiro e polêmico filme de Brooke Shields, Perdas e Danos foi lançado em 1992 pelo cineasta francês Louis Malle. Estrelado por Jeremy Irons e Juliette Binoche, este poderia ser mais filme clichê sobre um homem mais velho, rico e importante que se vê sexualmente atraído pela noiva de seu filho.
No entanto, creio que o diferencial esteja certamente nos diálogos (ou na falta deles), que carregam dramas familiares. Mas é no silêncio que se encontra o jogo de sedução entre Stphen Fleming (Jeremy Irons) e Anna (Juliette Binoche).
As expressões faciais dos dois atores diante desta atração sexual não precisam de diálogos. E destaco aqui o excelente trabalho de Jeremy Irons que consegue transmitir desejo, culpa, medo, constrangimento, tantos sentimentos contraditórios somente com o olhar.
Anna é uma mulher bastante peculiar, quase não fala, mas é uma jovem intelectual que passou a infância percorrendo o mundo e presenciou uma grande tragédia ainda na adolescência. Cheia de atitude, gosta de ser livre, é o oposto de Ingrid (Miranda Richardson) esposa de Stphen. Uma típica dona-de-casa, que vive para o marido e os filhos e fica impressionada (e por que não dizer chocada?) com os pensamentos modernos e autônomos da nora.
Não posso negar que Anna foi uma personagem que me chamou bastante atenção por ser uma mulher bem à frente do seu tempo. Estamos falando aqui de um filme do início da década de 90, e quando se vê seduzida pelo próprio sogro, é ela quem toma iniciativa, é ela quem marca os encontros, ela quem diz até onde devem ir. Por que não dizer que é uma personagem absolutamente feminista?
Não estou com isto querendo defender a traição, o desejo avassalador coloca um homem diante de um dilema e uma mulher que sabia o que toda essa atração poderia provocar caso o romance fosse descoberto. E neste sentido o filme foi bastante realista em mostrar que eles poderiam sim desfrutar de uma vida a dois, deixar o sentimento fluir, no entanto, pessoas que eram importantes para eles, sobretudo para Stphen sofreriam e até mesmo o odiariam por esta escolha.
As cenas de sexo foram muito bem construídas, nada em demasia, nada explícito, tudo na medida. O sexo remetia aquilo que eles sentiam um pelo outro: desejo. Era uma relação selvagem, desesperada, apaixonada, instintiva. Corpos, suor, perda da noção de certo e errado, tudo absolutamente carnal e incontrolável.
Um filme sobre paixões avassaladoras e suas consequências. Destaque também para a atuação de Miranda Richardson, que no final saiu do papel de esposa perfeita e mostrou seu lado de mulher ferida, magoada. Sem dúvidas, após sua interpretação final, conseguimos compreender seu comportamento.

Cotação: 3/5 estrelas

Link para assistir online: Perdas e Danos

sábado, 19 de outubro de 2013

Camille Claudel, 1915



Dirigido pelo cineasta francês Bruno Dumont que também dirigiu a obra minimalista O Pecado de Hadewjich, não se trata de um remake do filme de 1988 estrelado por Isabelle Adjani como muitos pensaram quando saiu boatos de quem uma nova obra sobre a famosa escultora francesa seria rodada.
Em Camille Claudel,1915 encontramos uma mulher de meia-idade interpretada pela fantástica Juliette Binoche, já internada em um hospital psiquiátrico. Para quem não conhece a história de Camille, ela foi uma famosa escultora francesa, pupila e amante do também escultor Rodin. Vendo que Rodin não se casaria com ela, Camille decide desvincular seu trabalho e seu envolvimento do mestre e do homem que amava para seguir sua própria carreira.
No entanto, o rompimento com Rodin e a morte de seu pai que era o único familiar que apoiava seu talento, culminou na perda gradativa de sua sanidade, até que por fim seu irmão Paul Claudel decide interná-la em um sanatório. 
Caso tenha interesse em assistir e ler o comentário sobre o primeiro filme, segue o link: Camille Claudel: entre a genialidade e a loucura.
Gostaria de destacar aqui, que não cabe comparações nas atuações de Isabelle Adjani e Juliette Binoche tendo em vista que são duas atrizes francesas muito talentosas e que cada uma interpretou brilhantemente Camille Claudel nos dois momentos mais difíceis da sua vida.
Também não cabe aqui comparar as duas obras já que o filme de 1988 retrata a juventude da escultora seu ápice e seu declínio, já no filme Bruno Dumont o roteiro foi baseado nas correspondências que Camille trocou com seu irmão Paul e no seu lado médico.
Camille Claudel, 1915 foi rodado em um hospital psiquiátrico de verdade com doentes mentais de verdade. A sensibilidade do cineasta e de Juliette Binoche para lidar com o elenco de apoio é algo surpreendente! Às vezes sentimos que Binoche parece indiferente aos internos, mas não podemos nos esquecer de que ela é Camille e que aquele mundo não é para ela.
As horas parecem não passar para aquela mulher que sente-se oprimida, ela olha para o céu, a câmera focaliza a expressão de deslocamento de Juliette Binoche. Não é preciso dizer nada, entendemos o que ela sente.
O que dizer sobre seus momentos de angústia e esperança? Como não se emocionar? Os jardins do hospital parecem áridos e nada tem a ver com a arte daquela mulher que não conseguia mais esculpir, que foi exilada pela família, rejeitada pelo único homem que amou.
Rodar o filme em um hospital psiquiátrico e ter como elenco de apoio doentes mentais, não é caridade. Isso é tentar ser o mais realista possível para realizar um filme que pode ser considerado histórico sobre uma grande personagem! Se você não conhece Camille Claudel, assista as duas obras e aprecie a vida e arte desta mulher que merece todo nosso respeito e admiração.

A falta de amor pode enlouquecer.

Cotação: 5 estrelas

Link para assistir online: Camille Claudel, 1915

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O Som ao Redor



Filme de 2012 dirigido e escrito por Kleber Mendonça Filho conhecido por produzir curtas como: Vinil Verde, Eletrodoméstica e Recife Frio, este é o primeiro longa de ficção do cineasta que sem sombra de dúvidas conseguiu a façanha de refazer o cinema, retratando a classe média como nunca tinha sido mostrada.
Trata-se sim de uma crítica à sociedade. Mas não a sociedade dos morros, do tráfico de drogas, dos presídios, como estamos acostumados a ver em filmes como Carandiru, Tropa de Elite e tantos outros que expõem tão bem os problemas de um Brasil oprimido e que levianamente são criticados por quem acha que cinema nacional resume-se a: favela, palavrões, tráfico, seca do nordeste.
O Som ao Redor mostra o cotidiano de uma rua de classe média no Recife. Aparentemente o que vemos realmente é o dia-a-dia dos personagens, nada demais. No entanto, logo no início do filme nos deparamos com fotos em preto e branco mostrando trabalhadores rurais, plantações de cana-de-açúcar, casarões antigos, e em seguida um condomínio moderno cheio de crianças brincando. É o ponto de partida da história e um belo contraste social!
A chegada de seguranças particulares muda a rotina da vizinhança. Uma vizinhança que parece ser comandado  por um coronel dos tempos antigos: Sr. Francisco (Waldemar José Solha) que é dono de vários imóveis na região e exerce grande influência entre os moradores.
Talvez tudo que eu escreva aqui já tenha sido escrito antes. E não é para menos, eu realmente nunca tinha visto a classe média como ponto central em um filme brasileiro. Geralmente vemos o imigrante nordestino, o bandido, a polícia, o morador de rua. Não que isto seja ruim, mas retratar um outro grupo de pessoas preocupado com a sua segurança, preocupado com o recebimento intacto da Revista Veja, é algo realmente novo.
A obra de Mendonça Filho tem essas nuances que podem passar despercebidas, mas que merecem ser discutidas.
Um outro ponto curioso é o do menino que escala as casas. Ele é mostrado em duas cenas: a primeira é quando Bia, incomodada com os latidos do cão, perde o sono e vai para a varanda. Ela então vê um garoto escalando os telhados de uma casa. 
Na outra cena, a filha de Bia sonha com vários meninos que sobem em árvores e em casas. Ela fica apavorada! 
Há uns anos atrás no Recife de fato existiu um "menino-aranha" que roubava os apartamentos escalando-os. Tiago João da Silva foi morto a tiros com 18 anos. Kleber Mendonça Filho recria essa personalidade que ficou tão popular no Recife, transformando-a em uma figura quase fantasmagórica. É o medo da classe média que vê sua segurança abalada, ou medo da ascensão dos que sempre foram oprimidos?
Quando o neto do Sr. Francisco vai visita-lo no antigo engenho podemos entender as fotos que são mostradas no início do filme e como Sr. Francisco conseguiu tantos imóveis. E o mais curioso, é que seu neto, o personagem mais simpático da trama é quem tem um pesadelo com a cachoeira da fazenda. Ele sabe que o patrimônio do avô e que um dia será dele, foi construído às custas de trabalhadores que deram o suor e certamente a vida pelo engenho.


Realmente não sei se consegui escrever uma crítica a altura do filme. Depois de assisti-lo entendi porque tem sido tão falado e esta sendo cotado para representar o Brasil no Oscar 2014.
O que posso afirmar é que se você tem aqueles velhos conceitos contra o cinema nacional, esta perdendo uma grande chance de assistir grandes obras como O Som ao Redor. Com Oscar ou sem Oscar não tenha dúvidas de que Kleber Mendonça Filho revela-se como um cineasta promissor e de que seu primogênito é uma reviravolta no nosso cinema.

Cotação: 5 estrelas

Link para assistir online: O Som ao Redor

terça-feira, 24 de setembro de 2013

3096 Tage



Filme de 2013 dirigido pela cineasta americana Sherry Hormann (A Flor do Deserto), narra a história verídica de Natascha Kampusch, austríaca que foi sequestrada aos dez anos de idade por Wolgang Priklopil e conseguiu fugir do cativeiro com dezoito anos. 3096 Tage ou 3096 Dias sãos os dias que Natascha esteve presa. A obra de Sherry Hormann foi baseada no livro homônimo de Natascha Kampusch.
Elenco: Amelia Pidgeon (Natascha criança), Antonia Campbell - Hugnes (Natascha adolescente) e Thure Lindhardt (Wolfgang Priklopil).

A diretora Sherry Horman foi bastante corajosa quando aceitou este projeto. O sequestro que teve início em 1998 e só terminou em 2006, repercutiu o mundo inteiro e ainda gera polêmica, por isso Hormann enfrentou dificuldades quanto ao elenco. Nenhum ator austríaco ou alemão queria fazer o papel do sequestrador, muitos recusaram sem mesmo ler o roteiro, segundo a própria diretora. Thure Lindhardt e Antonia Campbell - Hugnes foram as escolhas perfeitas para interpretar este drama tenso.
Poucas falas, e com um desenrolar propositalmente lento, a trama começa com Natascha ainda criança (Amelia Pidgeon esteve excelente!), em uma discussão com a mãe ela sai aborrecida para a escola e durante seu trajeto Wolfgang a leva em uma Van branca.
Não é confortável ver uma criança sendo maltratada, e já adolescente sofrendo todos os tipos de abusos físicos e psicológicos. A caracterização da atriz Antonia Campbell - Hugnes foi assombrosa! Antonia tem 30 anos, e teve que emagrecer muito para interpretar Natascha. Seu aspecto anoréxico, a fragilidade de um corpo de menina é algo que imediatamente nos faz pensar: "essa garota deve ter tido uma força psicológica muito grande para sobreviver durante oito anos enclausurada e sofrendo todo tipo de violência, caso contrário teria morrido", e as duas atrizes fizeram um belo trabalho ao transmitir essa força, e vontade de viver com um olhar ora determinado, ora amedrontado, triste, feliz (sim, existiram momentos felizes na memória de Natascha).


Já Thure Lindhardt incorporou o papel do típico vilão frio, calculista, sem culpa nem sentimentos, embora ele tenha proporcionado alguns momentos de ternura e alegria para a sua prisioneira. Tanto o personagem de Natascha quanto o de Wolfgang carregam bastante carga emocional.
Esteticamente o filme é claustrofóbico e desconfortável. A produção foi muito cuidadosa em recriar o ambiente em que Natascha ficou confinada: a casa, a cela, o vestido que ela usava no dia do sequestro, o contraste de luzes quando a garota ganha alguns "privilégios" como por exemplo, sair com seu algoz, tudo isso contribuiu para entendermos o sentimento que ela tinha quando estava presa e em "liberdade". Claro que é uma liberdade ilusória porque isso não diminui a tensão de ter o sequestrador sempre por perto.
Explicar porque alguém mantém uma pessoa em cárcere privado durante oito anos não é o objetivo da película. O filme  é um relato forte e impactante de uma menina que teve sua infância e adolescência perdidas.

Cotação: Quatro Estrelas

Link para assistir online:  3096 Tage

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Respeitável Público: O Palhaço!



Benjamim (Selton Mello) trabalha no circo Esperança e junto com seu pai Valdemar (Paulo José) formam a dupla de palhaços Pangaré e Puro Sangue. Benjamim esta enfrentando uma crise existencial, não sabe se é essa vida circense que quer levar, e terá que decidir entre seguir seu próprio caminho ou continuar com a trupe.
Filme de 2011 dirigido por Selton Mello (Final Feliz). Este é seu segundo trabalho como diretor.
Esse é outro filme que certamente jamais irei me perdoar por ter demorado tanto tempo para assistir. Encantador definiria esta obra dirigida por Selton Mello com roteiro também de Selton Mello e Marcelo Vindicatto. 
De uma simplicidade e magia contagiantes o filme se propõe a perguntar: qual o meu lugar no mundo? O que estou fazendo tem sentindo para mim? São esses questionamentos que fazem com que Benjamim (Selton Mello, brilhante como sempre!) queira buscar um outro estilo de vida, suas dúvidas sobre seu talento como artista circense ficam tão nítidas que Mello consegue expressar toda essa aparente apatia somente com a voz.
E o que dizer de Paulo José? Paulo José é um grande ator brasileiro que mesmo com sua doença (mal de Parkinson) conseguiu desempenhar muito bem o papel do palhaço Puro Sangue, e seu olhar paterno para o filho Benjamim é comovente.


E é com muito orgulho que devo dizer que o filme faz menções a cidades do interior de Minas Gerais (meu Estado querido, minha terra amada), cidades como Passos (terra natal de Selton Mello) e Montes Claros são vistas em placas, cidades que conheço bem e poder escutar o sotaque do meu Estado em um filme sem que isso se torne pejorativo, é bom demais da conta!
Cheio de cores e luzes, aquele humor infante que me remeteu a infância de outrora quando eu me debulhava em lágrimas assistindo Os Saltimbancos dos Trapalhões, isso me fez pensar na delicadeza e profundidade em um único filme! Não foi à toa que ele foi tão bem recebido pelo público, pelos críticos e rendeu uma premiação de melhor diretor para Selton Mello no festival de Gramado. Muito Justo!
Este realmente é um grande filme que conta com com um elenco muito bom, e um artista que tenho muito orgulho em dizer que é brasileiro e mais ainda! É mineiro! Selton Mello nasceu para o cinema, ou o cinema nasceu para ele?


Se você acha que o cinema brasileiro resume-se às favelas, tráfico de drogas e às famigeradas comédias românticas da Globo Produções, sugiro desfaça esses pensamentos porque decididamente O Palhaço e tantos outros filmes (que pretendo comentar em breve) estão aí para mostrar o contrário. O Brasil tem uma forma peculiar de fazer cinema, assim como a Argentina, Itália, Espanha, EUA, etc, nós temos nossa própria cultura que deve ser valorizada. Entristece-me bastante quando escuto alguém dizer que não gosta do cinema nacional, no meu ponto de vista é não gostar de ótimos roteiristas, ótimos diretores e ótimos atores, e posso garantir que O Palhaço vai fazer você chorar e aplaudir de pé!
Livre-se dos preconceitos e assista este espetáculo singelo, puro, e apaixonadamente tocante dirigido, escrito e protagonizado por um dos melhores atores de sua geração. Senhoras e Senhores: Selton Mello.

Link para assistir online: O Palhaço

Cotação: 5 estrelas

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Nada Pessoal



Uma jovem recém-separada (Lotee Verbeeck) decide sair da cidade e perambular pelo oeste da Irlanda, vivendo apenas com o que a natureza lhe proporciona. Certo dia ela encontra um sítio cujo dono é Martin (Stephen Rea) e ele lhe oferece emprego no jardim em troca de comida. Arredia, a moça aceita com a condição de nunca fazerem perguntas pessoais.
Filme de 2009 escrito e dirigido pela polonesa Urzula Antoniak (Code Blue).
Urzula Antoniak conseguiu tocar em dois pontos que são difíceis para o ser humano: o recomeço e o início de uma relação. Ciclos da nossa vida que aparentemente podem ser banais, mas na verdade são bastante profundos e a cineasta conseguiu com um roteiro que praticamente não tem diálogo, tocar nessa ferida do homem : o medo do novo.
À princípio vemos a bela jovem em um apartamento que parece ser seu, olhando pela janela pessoas remexerem em caixas com objetos. Supomos então que sejam seus objetos já que o apartamento esta vazio. Ela passa os dedos sobre uma aliança e a tira.
Em seguida, ela já esta andando sozinha nas estradas, pedindo carona, acampando em lugares que parecem inóspitos (mas que não deixam de ser uma bela paisagem), comendo comida do lixo, correndo perigo nas estradas. Ela parece fugir. Mas fugir do que?
Tudo muda quando ela encontra o sítio de Martin. Um homem que assim como ela cultiva a solidão e aprecia a natureza. Ela começa a trabalhar para ele em troca de comida, nada de perguntas pessoais, nenhuma intimidade, a jovem parece não querer se abrir, mas também parece assustada, não quer se apegar e ser abandonada novamente.
Com o tempo uma relação começa a crescer de  forma bastante peculiar. Não é como em outros filmes em que as pessoas se conhecem conversando. Martin e a jovem criam um vínculo a partir de coisas concretas, e assim um vai ganhando o respeito e a confiança do outro. 
Isso nos faz pensar em como estabelecemos nossas relações. Martin não sabia o nome da jovem (até um certo momento), no entanto, ambos estavam visivelmente apaixonados. Uma relação madura que foi crescendo dia após dia e vencendo o medo de perder, de recomeçar.
Stephen Rea e Lotee Verbeeck emocionam com suas atuações. Não é preciso nenhum diálogo, não é preciso saber quem são, os olhares, os dedos que roçam, a música que toca, a retribuição de carinho, tudo tão minimalista e singelo, mas ao mesmo tempo poético! 


É o ciclo da vida, o eterno recomeçar, o depreendimento do passado, uma nova chance, a coragem. Nunca um "ei você!" soou tão romântico.

Link para assistir online: Nada Pessoal

Cotação: 5 estrelas