domingo, 2 de junho de 2013

Na Terra de Amor e Ódio: mais uma ousadia de Angelina Jolie


Ajla (Zana Marjanovic) e Danjel (Goran Kostic) iniciam um romance em uma boate que é bruscamente interrompido por uma explosão. Era o início da guerra na Iugoslávia. Ajla é capturada já que era bósnia e Danjel, sérvio, entra para o comando do exército. Ajla então, torna-se sua protegida, já que todas as prisioneiras eram constantemente estupradas pelos soldados. Inicia-se assim uma perigosa paixão em meio ao caos da guerra.
Drama de 2011 dirigido e escrito por Angelina Jolie.
Quando eu soube que Angelina Jolie estava dirigindo um filme, fiquei bastante curiosa porque devo confessar, não gosto dos filmes que ela faz e não gosto dela como atriz. Muito se discute o talento de Jolie pelo fato dela ter ganhado o Oscar de melhor atriz coadjvante pelo filme Garota Interrompida de 1999, bem, particularmente o Oscar deixou de ser uma premiação séria há muito tempo! Para mim, é simplesmente uma festa em que premiam-se os melhores filmes, atores, diretores, etc, americanos, e sinto informar caro leitores, mas o cinema não se restringe a Hollywoody! E é por esse motivo que você que acompanha meu blog quase não vê filme americano por aqui. Porque o meu propósito é mostrar exatamente o que é desconhecido pela maioria, que esta fora dos padrões.
Outro fator que fez com que Angelina Jolie ganhasse o Oscar, é que a personagem que ela interpretou não é muito diferente da garota que ela era. Hoje a Senhora Pitt é uma mulher engajada em causas sociais, mãe de vários filhos, mas a Lisa de Garota Interrompida não é bem diferente do que foi Angelina. Garota rebelde, tatuada, usava drogas, declarou-se bissexual, então, qual é o mérito de interpretar a si própria?
Mas vamos falar do filme. Enquanto eu assistia Na Terra de Amor e Ódio, me senti em uma corda bamba, o roteiro é bastante fraco, algumas cenas são interrompidas bruscamente e eu não senti química entre o casal Ajla e Danjel. Aliás, devo dizer que Zana Marjanovic parecia indiferente aos horrores que aconteciam ao seu redor, uma atriz bastante inexpressiva para uma personagem que exigia mais dramaticidade.
Outro ponto que me deixou temerosa por Jolie: o filme tem duas horas e sete minutos de duração. A primeira hora passou tranquilamente, na segunda hora pensei: "será que ela vai conseguir amarrar essa história em um filme tão longo?" Ok. Conseguiu. Ponto para ela.


Outra coisa que chama atenção é a fotografia, e sim Angelina conseguiu mostrar todos os horrores da guerra. Aliás, devo salientar que esta parecia ser sua função, não houve uma preocupação maior com os diálogos que por vezes chegavam a ser pueris.
O saldo final é: para um primeiro filme, não é de todo ruim. E eu torço muito para que este seja o primeiro de muitos projetos dela, ou seja, Angelina: sai da frente das câmeras, porque atrás você fica melhor! E nós precisamos de mais mulheres nesse meio! Fica a dica!

Cotação: Duas Estrelas

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Pura: Quando cinema e realidade se entrelaçam...


Pura é a história de Katarina com 20 anos de idade, e que não tem muito na vida. Sua mãe é alcoólatra, e muitas vezes elas não têm dinheiro nem mesmo para o mercado. O único sentido que há na vida de Katarina é a paixão que nutre por Mozart. Obcecada com a música clássica, ela consegue um emprego de recepcionista em um conservatório, e conhece o maestro Adam que lhe apresenta o mundo da filosofia e música erudita. Logo os dois tornam-se amantes, no entanto, Adam é casado e o que para ele foi apenas uma aventura, para Katarina foi uma paixão sincera que trará sérias consequências.
Filme sueco de 2010 da diretora Lisa Langseth  e estrelado por Alicia Vikander (como Katarina).
Bem, eu assisti este filme já faz duas semanas e não me encontrei preparada para escrever sobre ele. Explico mais adiante. Ontem pude revê-lo com um olhar mais frio e cauteloso, prestando atenção nos detalhes técnicos (embora eu não seja muito boa nisso, devo confessar). Para quem gosta de um drama bem construído, recheado de filosofia, citações literárias e muita música clássica, estou certa de que este é o filme perfeito. Porque de fato "Pura" é um belíssimo filme de uma cineasta ainda em início de carreira e conta com uma interpretação ímpar da jovem Alicia Vikander que vive a inocente e rebelde Katarina.
Toda a trilha, as menções filosóficas, parecem mesmo ter sido escolhidas à dedo para contar a história de uma jovem que é apresentada a um mundo que ela não fazia ideia que existia: Kierkegaard, Beethoven, Karavajo, o poeta Gunnar Eklöf, e então nos perguntamos: qual o problema? Nenhum. Não existe problema em querer conhecimento, no entanto, o provedor deste conhecimento cobra de Katarina, Adam o maestro respeitado, casado e bem conceituado, não estava ensinando apenas, ele estava seduzindo. E Katarina entrega-se àquilo que ela pensava ser uma paixão, sua fascinação é tanta que ela passa até mesmo a ignorar o próprio namorado, julgando que ele não era suficiente para ela, culminando então no rompimento da relação.


Os leitores na certa estão se perguntando os motivos do título da resenha. Bem: "Coragem é a medida da vida" - Kierkegaard. Esta é a frase que rege o filme, e talvez a que irá reger toda a minha escrita, porque acredito que o escritor precisa ter coragem e acima de tudo ser honesto. E eu não seria totalmente honesta se não explicasse o verdadeiro motivo do meu incômodo quando assisti este filme.
Eu tive um Adam na minha vida. Um erudita esnobe que hoje leciona na PUC Minas e acredita realmente que isso é uma grande coisa. Assim como Adam, ele me apresentou à filosofia, a um mundo que eu não conhecia. Eu tinha apenas 17 anos, e ele já era um homem feito.
Durante doze anos esse homem me iludiu com palavras ao vento, dizia que me amava, mas que "os casais que se amam devem ficar separados. Ora meu caro professor, "a coragem é a medida da vida", não leu Kierkegaard? Ontem quando o filme terminou, me fiz a seguinte pergunta: o que você e Adam fizeram por um mundo melhor? Nada. E a sua vida é uma repetição daquilo que você era há mais de doze anos! 
O filme nos faz pensar nas pessoas que ficam paradas em frente a televisão e nada fazem de suas próprias vidas, mas também sentimos um certo asco dessa arrogância travestida de intelectualidade que tem o único intuito a autoafirmação! Porque esse mundo acadêmico e clássico é tão elitizado que parece mais uma sociedade secreta. Jamais vou esquecer das palavras de Adam para a jovem Katarina: "não se meta com a filosofia se você não esta preparada para a realidade." Você também teria dito isso para mim, professor?
Não tenho mais 17 anos.  Sou amante do cinema, da literatura, sei apreciar uma boa música. Minha loucura transcende meu coração e sai pelos meus poros. Também sou erudita, no entanto, não uso o meu saber para me aproveitar de ninguém. Se não for para fazer o bem, é melhor ser um ignorante na frente da TV.




terça-feira, 7 de maio de 2013

Pink Flamingos: O grotesco para cutucar a ferida?



Pink Flamingos é um filme que poucos conhecem. Ele foi lançado em 1972 pelo diretor John Waters no circuito underground. Um filme feito com baixíssimo orçamento que conta a história da Drag Queen Divine conhecida como a pessoa mais asquerosa do mundo. Ela mora em um trailler com seu filho, uma companheira de viagem e a mãe deficiente.
Divine e sua família entram em uma competição insana com outro casal para serem as pessoas mais asquerosas do mundo. Dentre as cenas bizarras esta a mais famosa de todas, Divine comendo fezes de cachorro, cena de incesto, sexo com uma galinha no meio e o nu frontal de um ator incluindo o close do ânus dele.
O filme causa repulsa até hoje. E por incrível que pareça tornou-se um cult, pois os jovens da época consideraram que ele estava tocando na ferida dos Estados Unidos. Seria um meio de criticar o sonho americano, a fama, e até mesmo a política.
Bem, não posso dizer que meu estômago ficou tranquilo enquanto eu assistia Pink Flamingos. De fato é um filme bizarro e grotesco. Mas alguns questionamentos me passaram pela mente enquanto eu o via, porque em algumas cenas, tive a impressão que não era bem questionar a sociedade o que John Waters queria, parecia que ele estava brincando de fazer cinema. Algo do tipo: "nós temos algum dinheiro, temos uma câmera, vamos pegar alguns desconhecidos, filmá-los e ver o que sai", tanto é que depois que o filme acaba tem uma entrevista com o diretor e ele diz claramente que muitas cenas ele não entendeu a razão.
Sei que posso ser apedrejada por escrever isso, porque sei que muitas pessoas cultuam esse tipo de filme, mas eu não posso deixar de perguntar se é realmente preciso realizar uma obra desse nível para questionar os valores de uma sociedade. Qual é a interpretação que eu posso fazer quando vejo uma mulher sentada na calçada comendo bosta de cachorro? Diretores isso é mesmo necessário?


Paralelamente, enquanto assistia Pink Flamingos me veio à mente Beleza Americana de Sam Mendes, que é um filme belíssimo, coloca em xeque o sonho americano, mas sem ser apelativo, pelo contrário, é bonito de se ver, é bonito de se ouvir, é bonito de sentir. A isto sim eu considero arte, que me perdoem os fãs de Pink Flamingos, mas devo lembrar que arte é algo totalmente subjetivo, e para mim, Pink Flamingos é um filme totalmente desnecessário. Não só pelas cenas de mau gosto, mas pela pobreza de roteiro, pela trilha sonora abominável.
Pink Flamingos é uma lição magistral do puro mau gosto. Eu não consegui ver nenhum propósito político, ao contrário de Saló 120 dias de Sodoma do italiano Pasolini que é igualmente polêmico, mas este sim tem questões políticas e você sabe que cada cena colocada ali foi necessária.
Não sou contra o choque. Sou contra o desnecessário, a perda de tempo. E Pink Flamingos é somente isso: uma total perda de tempo.

Link para assistir online: Pink Flamingos

Cotação: 1 estrela

sábado, 27 de abril de 2013

Moolaadé - 2004



Em uma aldeia africana, seis garotas fogem do "ritual de purificação" que seria a mutilação do clitóris, duas se suicidam em um poço local, e as outras quatro buscam abrigo na casa de Collé, uma mulher que não permitiu que sua filha fosse mutilada. Tentando proteger as meninas, Collé clama por Moolaadé ( proteção sagrada), e para isso terá que enfrentar toda a aldeia e até mesmo a violência de seu marido. Filme africano dirigido por Ousmane Sembene (A Negra de...)
Devo dizer que este filme foi ricamente construído pois consegue colocar o telespectador em contato com outra cultura sem que isso se torne enfadonho ou algo parecido. Nós vemos uma pequena aldeia com suas próprias leis, onde o machismo e as superstições imperam, mas apesar de toda a precariedade do local, as mulheres procuravam se manter informadas através dos seus rádios.
Particularmente gostei desse filme por dois motivos. O primeiro por abordar um assunto tão horrível que é a mutilação clitoriana, e que acontece em alguns países da África e Ásia. Ao contrário do que muitos pensam, este é um costume tribal e nada tem a ver com religião. E por que é tão horrível? Porque priva a mulher de ter uma vida sexual saudável, ela tem seu clitóris amputado, é impedida de sentir prazer, isso para garantir um marido, garantir a castidade e garantir que seja fiel ao marido.


Segundo porque achei o filme bastante feminista. São as mulheres que vão lutar contra a mutilação e desmistificar que esta prática é uma imposição do Islamismo, mesmo que para isso elas tenham seus rádios confiscados pelos homens em uma típica tentativa de alienar suas mulheres e fazer valer a força masculina.
Collé: mulher de fibra que enfrenta as tradições para salvar sua filha e as quatro garotas. Deixa-se chicotear pelo marido na frente de toda a aldeia e mesmo assim se mantém firme na decisão de não retirar o Moolaadé, ganhando o respeito das mulheres da tribo e por que não dizer, o meu também?


Muitos podem dizer que esta prática é cultural, e de fato é. Mas não podemos nos esquecer que muitas meninas morrem, sendo assim, tudo que provoca sofrimento alheio precisa e deve ser mudado. Acredito que o filme de Ousmane Sembene seja um grito em nome de todas as mulheres mutiladas, e mais ainda! Um alerta para que o mundo volte seu olhar para uma região tão esquecida como a África.


"Nenhuma menina será mais cortada!"

terça-feira, 23 de abril de 2013

Pariah - 2011



Trama dirigida por Dee Rees  e que conta a história da adolescente Alike (Adepero Oduye), moradora do Brooklin e que tenta de todas as maneiras esconder sua homossexualidade dos pais ( Kim Wayanes e Charles Parnel) . A única pessoa que sabe seu segredo é sua melhor amiga Laura (Pernell Walker)  que também é lésbica e por essa razão, a mãe desaprova esta amizade. Juntas, as duas frequentam boates GLS na esperança de que Alike encontre uma namorada. Filme vencedor do festival de Sundance 2011.
Obs: Pariah = uma pessoa sem status, um membro rejeitado pela sociedade. 

"Para onde voava o pássaro sem patas, encontrava árvores sem galhos."
Andre Lorde

É com esta citação que começa o filme Pariah. E em seguida vemos Alike e Laura em uma boate GlS, Alike vestida de menino, feliz, sentindo-se livre, mas ao mesmo tempo apreensiva, pois queria conhecer alguém. O tempo passa, Laura e Alike precisam ir embora, Alike se veste de menina dentro do ônibus, nesta cena já podemos concluir que os pais não aceitam a homossexualidade da filha.
Li muitos comentários à respeito desse filme e um deles é que as lésbicas ficaram estereotipadas. Discordo completamente dessa afirmação, pois o que vemos é uma adolescente de 17 anos lutando para viver sua sexualidade, a não aceitação da família, o preconceito que ela e outras garotas sofrem no bairro, isso não é estereotipo, é a realidade de muitos jovens retratada na tela dos cinemas.
Um outro fator que merece destaque, é a aproximação de Lee (Alike) e uma amiga do colégio. É claro que a garota sabia que Alike era lésbica, e se aproveitou disso para brincar, ou para matar sua curiosidade (isso é só uma hipótese minha), já que a garota foi totalmente indiferente no dia seguinte, sem se importar com os sentimentos de Alike, apenas diz: "Não conte para ninguém."
E podemos dizer que isso acontece? Sim podemos. Com tantas declarações de famosos que se dizem bissexuais, parece que que virou modinha entre os jovens experimentar de tudo, ser de todo mundo e dane-se o resto! Nada contra os bissexuais! Pelo contrário! Sei perfeitamente que é possível sim um homem ou uma mulher sentir atração pelos dois sexos, mas o que questiono aqui é a banalização. A garota dormiu com Alike em uma noite e no outro dia estava com um menino! E disse ainda: "Eu não sou gay!"
É claro que isso provocou um caos em Alike, afinal era sua primeira experiência, para ela foi verdadeiro, foi entrega total, e não só um passatempo.
A mãe esta sempre preocupada em vestir sua garotinha como menina e garantir que ela ande com companhias femininas. O pai é relapso, sabe da homossexualidade da filha, mas não quer aceitar. Afinal, ele é um policial, e isso seria vergonhoso, não? Ele não suporta a esposa com seus fundamentalismos, ele a trai, até sentimos raiva dele, mas é este homem quem estenderá a mão para Alike no momento em que ela mais precisará.


"Não há nada de errado comigo."

Lee além de corajosa é uma grande escritora, e fez sua escolha. Isso exigiu que ela atravessasse um caminho  árduo, mas escolhas exigem sacrifícios, exigem renúncias, exige coragem.


"Diga a mamãe que Deus faz as coisas certas."

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Orações para Bobby - 2009 : Meu protesto contra Marco Feliciano!




Orações para Bobby conta a verdadeira história de Mary (Sigourney Weaver), uma mãe de família religiosa, que se sente abalada quando seu filho Boby (Ryan Kelley) revela ser gay. Começa então uma corrida na tentativa de "curar" Bobby, no entanto, depois de se culpar por ser quem era, Bobby se atira de uma ponte aos 20 anos de idade e Mary começa a refletir sobre seus próprios conceitos até se tornar uma militante da causa gay. Filme dirigido por Russell Mulcahy (O Escorpião Rei: A Saga de um Guerreiro)
Assisti esse filme já tem um certo tempo. Embora tenha sido feito para a TV, a atuação de Sigourney Weaver não passa despercebida, foi simplesmente tocante. Não é um grande filme, mas é uma grande história, e em tempos de Marco Feliciano nada mais sensato que escrever sobre uma trama com temática GLS.
Eu poderia ter escolhido outro filme, há muitos filmes bons com temática GLS. Mas lembrei-me deste quando li um comentário de uma moça com relação a uma matéria da revista Época, que dizia que Feliciano insiste em dizer que os negros são amaldiçoados, e entre tantos comentários dos leitores, é claro que suas declarações homofóbicas vieram à tona. E a moça escreveu mais ou menos assim: "toda mãe sonha que o filho se case de forma tradicional, tenha filhos, eu não sou homofóbica!" Me pus então a refletir sobre o que ela escreveu, e imediatamente Orações para Boby me veio à mente.
Bem, no filme, assim como na realidade, Mary sonhava exatamente isso para Boby, mas não era isso que ele sonhava. E ele tentou seguir à risca a cartilha da mãe, mas isso só gerou tristeza, infelicidade, depressão, e um fim trágico. Então, fica a pergunta: os pais querem que os filhos sejam uma extensão deles mesmos, ou que tenham vida própria e sejam felizes?
Mesmo com os leitores já sabendo o final do filme, ele não termina aí. Com a morte de Bobby, Mary vê a chance de recomeçar, de entender o filho, e para isso ela terá que quebrar seus próprios paradigmas. Uma luta consigo mesma, com aquilo que acreditou a vida inteira e sobretudo com seu amor de mãe.
Esta história aconteceu na década de 70, mas acontece ainda nos dias de hoje. Basta ver as declarações de Feliciano, Joelma (nossa como Joelma me lembrou essa mãe!) Nos coloquemos no lugar dos homossexuais, como eles se sentem tendo seus direitos violados, sendo motivo de escárnio para toda a sociedade? Como você se sentiria?
Mais resenhas sobre filmes com temáticas gay virão. Então, se você é homofóbico ou algo do gênero, me faça um favor: não leia este blog.



"Eu não posso deixar ninguém saber que não sou hétero. Isso seria tão humilhante. Meus amigos iriam me odiar, com certeza. Eles poderiam até me bater. Na minha família, já ouvi eles falando várias vezes que odeiam gays, que Deus odeia os gays também. Isso realmente me apavora quando escuto minha família falando desse jeito, porque eles estão realmente falando de mim. Às vezes eu gostaria de desaparecer da face da terra...Às vezes sofro tanto...Estou assustado e sozinho. Estou condenado. Estou afundando lentamente num vasto lago de areia movediça. Um poço sem fundo. Gostaria de rastejar para debaixo de uma pedra e dormir para sempre. [...] Posso sentir os olhos de Deus olhando para mim com pena."

Trecho extraído do diário de Bobby.


Esta é a verdadeira Mary em uma parada gay.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

L'Apollonide: Os Amores da Casa de Tolerância - 2011



Um famoso bordel da França do final do século XIX vive seus dias de decadência. No entanto, é nesta casa que muitos homens vão buscar refúgio nos braços de belas mulheres, que se dispõem a tudo para agradar seus clientes. Trama dirigida dirigida pelo francês Bertrand Bonello.
Primeiramente devo dizer que na filmografia de Bertrand Bonello só consta L'Apollonide, e se minha pesquisa estiver correta, Bonello revela-se como um dos melhores diretores e roteiristas desta década.
L'Apollonide - Os Amores da Casa de Tolerância poderia ser mais um filme sobre prostituição, mas não é. A trilha sonora é simplesmente fabulosa, o figurino é impecável e a fotografia é belíssima.


Também devo fazer uma crítica ao site Sonata Première ( esse é o blog que uso para baixar a maioria dos filmes), que qualificou o filme como "erótico", e de erótico ele não tem absolutamente nada. Trata-se de um drama muito bem construído acerca das belas prostitutas desta casa de tolerância que sonham encontrar um cliente que pague suas dívidas para que elas possam sair e ter outra vida. Sim, elas sonham com outra vida, apaixonam-se pelos clientes, choram por eles, mesmo sendo submetidas às mais constantes humilhações.
Essas mulheres eram escravas. Precisavam estar sempre limpas, perfumadas, e entre um cliente e outro sempre havia um ritual de higiene. Algo que cansa só de olhar, mas elas tinham que estar sorridentes, dispostas a tolerar 3, 6 clientes em uma noite. A personagem que melhor representa toda essa tristeza travestida de alegria é Madeleine, que após confiar cegamente em um cliente que conhecia há anos, acaba ficando famosa como "a mulher que ri", uma metáfora perfeita para o riso forçado, o choro contido.
A amizade que se forma entre elas é algo comovente. Até mesmo a cafetina não tem aquela figura malévola e exploradora que estamos acostumados a ver. Ela cobra as dívidas das garotas, mas preocupa-se com elas, não as trata mal, mas é exigente quanto à higiene e saúde das meninas.


As casas de tolerância não existem mais. Não com o requinte e glamour do século XIX. Então, onde foram parar as prostitutas? Conseguiram elas ser livres? O que mudou do século XIX para o século XXI? Esses são alguns questionamentos que podemos fazer sobre essas mulheres que sempre viveram à margem da sociedade.


"Se eu sair daqui, nunca mais faço amor"