sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Luzes da Ribalta


"As luzes da Ribalta que a velhice abandona quando a juventude entra em cena. A história de uma bailarina e de um palhaço.."

E é assim que se inicia este espetáculo dirigido por Chaplin em 1952, com uma das trilhas sonoras mais belas que já ouvi. Realmente não sei se conseguirei fazer um comentário à altura de Luzes da Ribalta porque creio eu que Chaplin tenha se superado nesta obra, não só como o grande cineasta que foi, mas também como ator e compositor de uma canção que certamente marcou os áureos tempos da sétima arte.
A história se passa em 1914 e Chaplin despido do seu famoso personagem "Carlitos", interpreta Calveiro, um ex-comediante que fez muito sucesso nos teatros, mas que foi esquecido com o tempo por causa da velhice. Morando em uma velha pensão, ele chega bêbado e sente cheiro de gás vindo de um dos quartos, ele então arromba a porta e encontra uma bela jovem: Theresa Ambrose (Claire Bloom) desacordada e a tira dali. Com a ajuda de um médico, Calvero a leva para o seu quarto e quando Theresa desperta ele pergunta a razão dela ter querido se matar. Ela então conta que seu sonho era ser uma bailarina, mas que agora suas pernas estavam paralisadas. Calveiro promete ajuda-la, mas ele também será ajudado.
Para quem gosta de Chaplin, ou pelo menos o admira e reconhece o valor que ele tem para o cinema, sabe que este é um trabalho completamente diferente dos outros. Trata-se de um drama e como Chaplin é mais conhecido pelas comédias que realizou, Luzes da Ribalta é um primor não só por mostrar a versatilidade de um gênio, porque Chaplin interpretando um artista desiludido, deprimido, mas que ainda encontra forças para ser solidário com outra artista, isso só comprova que ele (Chaplin) podia fazer qualquer coisa, interpretar qualquer papel, escrever roteiros que marcaram o mundo do cinema, e ainda compor uma belíssima canção como a de Luzes da Ribalta.
Creio eu que este seja mais um daqueles filmes atemporais. Será que o personagem Calveiro não seria o próprio Chaplin, sabendo que a velhice estava chegando, o cinema estava tomando novos rumos e ele teria que se despedir de Carlitos? Será que em 1952 as pessoas ainda riam do nobre vagabundo como nos tempos do cinema mudo? 
O filme me fez pensar também em tantos artistas que contribuíram para a arte, mas acabaram caindo no esquecimento, morrendo na miséria. Como a arte pode ser bela e ao mesmo tempo cruel! Decidi escrever sobre Chaplin no blog, e as postagens quase não tiveram visualizações! Não caro leitor, eu não estou cobrando que você curta minha página e nem siga meu blog. Mas é fato que se eu estivesse comentando sobre algum filme pipoca que esta em cartaz, eu já teria mil visualizações!
Nada contra filme pipoca, não me interpretem mal. Mas um gênio como Chaplin que deixou um legado importantíssimo para o cinema, e que inspirou tantos artistas da atualidade, merece ser homenageado sempre.
Luzes da Ribalta é a mais bela demonstração de amor à arte. O amor à música, dança, comédia, ao teatro, ao público! É uma linda e explícita demonstração de amor.

Cotação: 5 estrelas

Link para assistir online: Luzes da Ribalta

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Um Pouco de Charlie Chaplin



Bem, eu tinha prometido na page que se conseguisse atingir trezentos curtidores, faria uma homenagem a Chaplin. Eis que já ultrapassou de trezentos e estou atrasada com minha promessa! Mil perdões!
Primeiramente é impossível falar em cinema sem falar em Chaplin. Foram mais de 75 anos dedicados à  arte, desde quando era criança quando ainda se apresentava em teatros do Reino Unido, até a sua morte aos 88 anos de idade. E não há o que dizer. Esse baixinho, magricela em cena  tornava -se um gigante, um monstro!
Nascido Charles Spencer Chaplin Jr. em Londres no dia 16 de abril de 1889, Chaplin era diretor, roteirista, compositor das próprias trilhas sonoras, produtor, além de financiar seus próprios filmes. Em sua extensa obra podemos destacar: Luzes da Cidade, Tempos Modernos, Em Busca do Ouro, O Garoto, O Grande Ditador, Luzes da Ribalta, dentre outros.
O rei do cinema mudo criou um personagem cativante : o Carlitos, ou o Vagabundo. Quem nunca o viu caracterizado com um paletó puído, calça e sapatos em tamanhos maiores, a cartola, uma bengala e o famoso bigodinho? Este simpático personagem cativou o mundo inteiro com suas maneiras requintadas, seu ar pueril, e suas confusões sempre regadas à trapalhadas e a velha comédia que só mesmo Chaplin sabia fazer, e que nos arrancam risos até hoje!


Ouso dizer que seus filmes são atemporais. Este cineasta estava à frente do seu tempo, mesmo com sua comédia pastelão, ele sempre tinha o que dizer, algo que nos leva a refletir até mesmo na atualidade, por isso digo que seu cinema nunca é velho demais. Você pode assistir Tempos Modernos e conseguirá associar muitos aspectos com nossa realidade.
Por sua contribuição ao cinema, Chaplin recebeu vários títulos ainda em vida. (Cavaleiro do Império Britânico) e Francês (Légion d ' Honnoeur), pela Universidade de Oxford (Doutor Honoris Causa) e pela Academia de Artes e e Ciências Cinematográficas dos EUA (Oscar especial pelo conjunto da obra em 1972).
Em 25 de dezembro de 1977 aos 88 anos, Chapin sofre um derrame cerebral em sua casa na Inglaterra. Ele havia deixado os EUA há muitos anos por ser esquerdista e por sofrer perseguição da imprensa marrom.
Não deixe de conhecer um pouco da obra deste gênio inimitável, mas que certamente influenciou inúmeros artistas! E não deixem de conferir o comentário do grande clássico: Luzes da Ribalta!

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O Grande Ditador: Um Convite de Chaplin para repensarmos os tempos atuais.


Dispensando qualquer apresentação, esta obra-prima de 1940 escrita e dirigida pelo mestre Charles Chaplin, nada mais é que uma crítica explícita ao nazismo e fascismo. Uma crítica inteligente e muito bem humorada como só Carlitos sabia fazer.
Chaplin encarna um ditador alemão Hynkel e um barbeiro judeu sósia do ditador. Os discursos de Hynkel contra a democracia além de serem engraçadas, muito me lembrou o discurso da nossa presidenta quando ela disse abertamente sobre a espionagem dos EUA: "Isso fere os direitos da democracia.", impossível não fazer esta associação.
E com irreverência e criatividade, Chaplin mostra a obsessão pelo poder do ditador, e isso fica claro na famosa cena em que ele brinca com o globo terrestre. A mensagem é clara: "quero ser o dono do mundo, ou já sou o dono do mundo, posso fazer com ele o que eu quiser". E a triste realidade dos judeus confinados nos guetos.
Mas por que esse ódio contra os judeus?
Teríamos que fazer um apanhado histórico. Os judeus são perseguidos desde os tempos de Cristo. O escritor e colunista do site Carta Maior Flávio Ricardo Vassoler escreveu em seu artigo que os judeus foram o bode-expiatório, o bode-expiatório para a inflação estratosférica, para todas as mazelas da sociedade. Culpem os judeus!
E agora, a quem devemos culpar? Na nossa atual sociedade, quem são as pessoas que devem ir para os campos de concentração? Os homossexuais? As feministas? Os comunistas? Ateus? Aqueles que pensam diferente e representam uma ameaça para o nosso governo? Ou para a nossa empresa? Os espinhos da sociedade?
Mesmo o filme sendo antigo, e algumas pessoas não gostando do gênero, acredito que ele nos convida a refletir sobre os regimes totalitários. Sendo assim, podemos classifica-lo como atemporal, ou seja, não existe época para assisti-lo, não existe tempo para pensar e repensar o passado e o futuro.
Se você não conhece o cinema de Chaplin, te faço um convite para que assista a este clássico e entenda porque Carlitos é tão cultuado! 

Cotação: 5 estrelas

Link para assistir online: O Grande Ditador

domingo, 27 de outubro de 2013

Perdas e Danos


Do mesmo diretor de "Menina Bonita" primeiro e polêmico filme de Brooke Shields, Perdas e Danos foi lançado em 1992 pelo cineasta francês Louis Malle. Estrelado por Jeremy Irons e Juliette Binoche, este poderia ser mais filme clichê sobre um homem mais velho, rico e importante que se vê sexualmente atraído pela noiva de seu filho.
No entanto, creio que o diferencial esteja certamente nos diálogos (ou na falta deles), que carregam dramas familiares. Mas é no silêncio que se encontra o jogo de sedução entre Stphen Fleming (Jeremy Irons) e Anna (Juliette Binoche).
As expressões faciais dos dois atores diante desta atração sexual não precisam de diálogos. E destaco aqui o excelente trabalho de Jeremy Irons que consegue transmitir desejo, culpa, medo, constrangimento, tantos sentimentos contraditórios somente com o olhar.
Anna é uma mulher bastante peculiar, quase não fala, mas é uma jovem intelectual que passou a infância percorrendo o mundo e presenciou uma grande tragédia ainda na adolescência. Cheia de atitude, gosta de ser livre, é o oposto de Ingrid (Miranda Richardson) esposa de Stphen. Uma típica dona-de-casa, que vive para o marido e os filhos e fica impressionada (e por que não dizer chocada?) com os pensamentos modernos e autônomos da nora.
Não posso negar que Anna foi uma personagem que me chamou bastante atenção por ser uma mulher bem à frente do seu tempo. Estamos falando aqui de um filme do início da década de 90, e quando se vê seduzida pelo próprio sogro, é ela quem toma iniciativa, é ela quem marca os encontros, ela quem diz até onde devem ir. Por que não dizer que é uma personagem absolutamente feminista?
Não estou com isto querendo defender a traição, o desejo avassalador coloca um homem diante de um dilema e uma mulher que sabia o que toda essa atração poderia provocar caso o romance fosse descoberto. E neste sentido o filme foi bastante realista em mostrar que eles poderiam sim desfrutar de uma vida a dois, deixar o sentimento fluir, no entanto, pessoas que eram importantes para eles, sobretudo para Stphen sofreriam e até mesmo o odiariam por esta escolha.
As cenas de sexo foram muito bem construídas, nada em demasia, nada explícito, tudo na medida. O sexo remetia aquilo que eles sentiam um pelo outro: desejo. Era uma relação selvagem, desesperada, apaixonada, instintiva. Corpos, suor, perda da noção de certo e errado, tudo absolutamente carnal e incontrolável.
Um filme sobre paixões avassaladoras e suas consequências. Destaque também para a atuação de Miranda Richardson, que no final saiu do papel de esposa perfeita e mostrou seu lado de mulher ferida, magoada. Sem dúvidas, após sua interpretação final, conseguimos compreender seu comportamento.

Cotação: 3/5 estrelas

Link para assistir online: Perdas e Danos

sábado, 19 de outubro de 2013

Camille Claudel, 1915



Dirigido pelo cineasta francês Bruno Dumont que também dirigiu a obra minimalista O Pecado de Hadewjich, não se trata de um remake do filme de 1988 estrelado por Isabelle Adjani como muitos pensaram quando saiu boatos de quem uma nova obra sobre a famosa escultora francesa seria rodada.
Em Camille Claudel,1915 encontramos uma mulher de meia-idade interpretada pela fantástica Juliette Binoche, já internada em um hospital psiquiátrico. Para quem não conhece a história de Camille, ela foi uma famosa escultora francesa, pupila e amante do também escultor Rodin. Vendo que Rodin não se casaria com ela, Camille decide desvincular seu trabalho e seu envolvimento do mestre e do homem que amava para seguir sua própria carreira.
No entanto, o rompimento com Rodin e a morte de seu pai que era o único familiar que apoiava seu talento, culminou na perda gradativa de sua sanidade, até que por fim seu irmão Paul Claudel decide interná-la em um sanatório. 
Caso tenha interesse em assistir e ler o comentário sobre o primeiro filme, segue o link: Camille Claudel: entre a genialidade e a loucura.
Gostaria de destacar aqui, que não cabe comparações nas atuações de Isabelle Adjani e Juliette Binoche tendo em vista que são duas atrizes francesas muito talentosas e que cada uma interpretou brilhantemente Camille Claudel nos dois momentos mais difíceis da sua vida.
Também não cabe aqui comparar as duas obras já que o filme de 1988 retrata a juventude da escultora seu ápice e seu declínio, já no filme Bruno Dumont o roteiro foi baseado nas correspondências que Camille trocou com seu irmão Paul e no seu lado médico.
Camille Claudel, 1915 foi rodado em um hospital psiquiátrico de verdade com doentes mentais de verdade. A sensibilidade do cineasta e de Juliette Binoche para lidar com o elenco de apoio é algo surpreendente! Às vezes sentimos que Binoche parece indiferente aos internos, mas não podemos nos esquecer de que ela é Camille e que aquele mundo não é para ela.
As horas parecem não passar para aquela mulher que sente-se oprimida, ela olha para o céu, a câmera focaliza a expressão de deslocamento de Juliette Binoche. Não é preciso dizer nada, entendemos o que ela sente.
O que dizer sobre seus momentos de angústia e esperança? Como não se emocionar? Os jardins do hospital parecem áridos e nada tem a ver com a arte daquela mulher que não conseguia mais esculpir, que foi exilada pela família, rejeitada pelo único homem que amou.
Rodar o filme em um hospital psiquiátrico e ter como elenco de apoio doentes mentais, não é caridade. Isso é tentar ser o mais realista possível para realizar um filme que pode ser considerado histórico sobre uma grande personagem! Se você não conhece Camille Claudel, assista as duas obras e aprecie a vida e arte desta mulher que merece todo nosso respeito e admiração.

A falta de amor pode enlouquecer.

Cotação: 5 estrelas

Link para assistir online: Camille Claudel, 1915

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O Som ao Redor



Filme de 2012 dirigido e escrito por Kleber Mendonça Filho conhecido por produzir curtas como: Vinil Verde, Eletrodoméstica e Recife Frio, este é o primeiro longa de ficção do cineasta que sem sombra de dúvidas conseguiu a façanha de refazer o cinema, retratando a classe média como nunca tinha sido mostrada.
Trata-se sim de uma crítica à sociedade. Mas não a sociedade dos morros, do tráfico de drogas, dos presídios, como estamos acostumados a ver em filmes como Carandiru, Tropa de Elite e tantos outros que expõem tão bem os problemas de um Brasil oprimido e que levianamente são criticados por quem acha que cinema nacional resume-se a: favela, palavrões, tráfico, seca do nordeste.
O Som ao Redor mostra o cotidiano de uma rua de classe média no Recife. Aparentemente o que vemos realmente é o dia-a-dia dos personagens, nada demais. No entanto, logo no início do filme nos deparamos com fotos em preto e branco mostrando trabalhadores rurais, plantações de cana-de-açúcar, casarões antigos, e em seguida um condomínio moderno cheio de crianças brincando. É o ponto de partida da história e um belo contraste social!
A chegada de seguranças particulares muda a rotina da vizinhança. Uma vizinhança que parece ser comandado  por um coronel dos tempos antigos: Sr. Francisco (Waldemar José Solha) que é dono de vários imóveis na região e exerce grande influência entre os moradores.
Talvez tudo que eu escreva aqui já tenha sido escrito antes. E não é para menos, eu realmente nunca tinha visto a classe média como ponto central em um filme brasileiro. Geralmente vemos o imigrante nordestino, o bandido, a polícia, o morador de rua. Não que isto seja ruim, mas retratar um outro grupo de pessoas preocupado com a sua segurança, preocupado com o recebimento intacto da Revista Veja, é algo realmente novo.
A obra de Mendonça Filho tem essas nuances que podem passar despercebidas, mas que merecem ser discutidas.
Um outro ponto curioso é o do menino que escala as casas. Ele é mostrado em duas cenas: a primeira é quando Bia, incomodada com os latidos do cão, perde o sono e vai para a varanda. Ela então vê um garoto escalando os telhados de uma casa. 
Na outra cena, a filha de Bia sonha com vários meninos que sobem em árvores e em casas. Ela fica apavorada! 
Há uns anos atrás no Recife de fato existiu um "menino-aranha" que roubava os apartamentos escalando-os. Tiago João da Silva foi morto a tiros com 18 anos. Kleber Mendonça Filho recria essa personalidade que ficou tão popular no Recife, transformando-a em uma figura quase fantasmagórica. É o medo da classe média que vê sua segurança abalada, ou medo da ascensão dos que sempre foram oprimidos?
Quando o neto do Sr. Francisco vai visita-lo no antigo engenho podemos entender as fotos que são mostradas no início do filme e como Sr. Francisco conseguiu tantos imóveis. E o mais curioso, é que seu neto, o personagem mais simpático da trama é quem tem um pesadelo com a cachoeira da fazenda. Ele sabe que o patrimônio do avô e que um dia será dele, foi construído às custas de trabalhadores que deram o suor e certamente a vida pelo engenho.


Realmente não sei se consegui escrever uma crítica a altura do filme. Depois de assisti-lo entendi porque tem sido tão falado e esta sendo cotado para representar o Brasil no Oscar 2014.
O que posso afirmar é que se você tem aqueles velhos conceitos contra o cinema nacional, esta perdendo uma grande chance de assistir grandes obras como O Som ao Redor. Com Oscar ou sem Oscar não tenha dúvidas de que Kleber Mendonça Filho revela-se como um cineasta promissor e de que seu primogênito é uma reviravolta no nosso cinema.

Cotação: 5 estrelas

Link para assistir online: O Som ao Redor

terça-feira, 24 de setembro de 2013

3096 Tage



Filme de 2013 dirigido pela cineasta americana Sherry Hormann (A Flor do Deserto), narra a história verídica de Natascha Kampusch, austríaca que foi sequestrada aos dez anos de idade por Wolgang Priklopil e conseguiu fugir do cativeiro com dezoito anos. 3096 Tage ou 3096 Dias sãos os dias que Natascha esteve presa. A obra de Sherry Hormann foi baseada no livro homônimo de Natascha Kampusch.
Elenco: Amelia Pidgeon (Natascha criança), Antonia Campbell - Hugnes (Natascha adolescente) e Thure Lindhardt (Wolfgang Priklopil).

A diretora Sherry Horman foi bastante corajosa quando aceitou este projeto. O sequestro que teve início em 1998 e só terminou em 2006, repercutiu o mundo inteiro e ainda gera polêmica, por isso Hormann enfrentou dificuldades quanto ao elenco. Nenhum ator austríaco ou alemão queria fazer o papel do sequestrador, muitos recusaram sem mesmo ler o roteiro, segundo a própria diretora. Thure Lindhardt e Antonia Campbell - Hugnes foram as escolhas perfeitas para interpretar este drama tenso.
Poucas falas, e com um desenrolar propositalmente lento, a trama começa com Natascha ainda criança (Amelia Pidgeon esteve excelente!), em uma discussão com a mãe ela sai aborrecida para a escola e durante seu trajeto Wolfgang a leva em uma Van branca.
Não é confortável ver uma criança sendo maltratada, e já adolescente sofrendo todos os tipos de abusos físicos e psicológicos. A caracterização da atriz Antonia Campbell - Hugnes foi assombrosa! Antonia tem 30 anos, e teve que emagrecer muito para interpretar Natascha. Seu aspecto anoréxico, a fragilidade de um corpo de menina é algo que imediatamente nos faz pensar: "essa garota deve ter tido uma força psicológica muito grande para sobreviver durante oito anos enclausurada e sofrendo todo tipo de violência, caso contrário teria morrido", e as duas atrizes fizeram um belo trabalho ao transmitir essa força, e vontade de viver com um olhar ora determinado, ora amedrontado, triste, feliz (sim, existiram momentos felizes na memória de Natascha).


Já Thure Lindhardt incorporou o papel do típico vilão frio, calculista, sem culpa nem sentimentos, embora ele tenha proporcionado alguns momentos de ternura e alegria para a sua prisioneira. Tanto o personagem de Natascha quanto o de Wolfgang carregam bastante carga emocional.
Esteticamente o filme é claustrofóbico e desconfortável. A produção foi muito cuidadosa em recriar o ambiente em que Natascha ficou confinada: a casa, a cela, o vestido que ela usava no dia do sequestro, o contraste de luzes quando a garota ganha alguns "privilégios" como por exemplo, sair com seu algoz, tudo isso contribuiu para entendermos o sentimento que ela tinha quando estava presa e em "liberdade". Claro que é uma liberdade ilusória porque isso não diminui a tensão de ter o sequestrador sempre por perto.
Explicar porque alguém mantém uma pessoa em cárcere privado durante oito anos não é o objetivo da película. O filme  é um relato forte e impactante de uma menina que teve sua infância e adolescência perdidas.

Cotação: Quatro Estrelas

Link para assistir online:  3096 Tage

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Respeitável Público: O Palhaço!



Benjamim (Selton Mello) trabalha no circo Esperança e junto com seu pai Valdemar (Paulo José) formam a dupla de palhaços Pangaré e Puro Sangue. Benjamim esta enfrentando uma crise existencial, não sabe se é essa vida circense que quer levar, e terá que decidir entre seguir seu próprio caminho ou continuar com a trupe.
Filme de 2011 dirigido por Selton Mello (Final Feliz). Este é seu segundo trabalho como diretor.
Esse é outro filme que certamente jamais irei me perdoar por ter demorado tanto tempo para assistir. Encantador definiria esta obra dirigida por Selton Mello com roteiro também de Selton Mello e Marcelo Vindicatto. 
De uma simplicidade e magia contagiantes o filme se propõe a perguntar: qual o meu lugar no mundo? O que estou fazendo tem sentindo para mim? São esses questionamentos que fazem com que Benjamim (Selton Mello, brilhante como sempre!) queira buscar um outro estilo de vida, suas dúvidas sobre seu talento como artista circense ficam tão nítidas que Mello consegue expressar toda essa aparente apatia somente com a voz.
E o que dizer de Paulo José? Paulo José é um grande ator brasileiro que mesmo com sua doença (mal de Parkinson) conseguiu desempenhar muito bem o papel do palhaço Puro Sangue, e seu olhar paterno para o filho Benjamim é comovente.


E é com muito orgulho que devo dizer que o filme faz menções a cidades do interior de Minas Gerais (meu Estado querido, minha terra amada), cidades como Passos (terra natal de Selton Mello) e Montes Claros são vistas em placas, cidades que conheço bem e poder escutar o sotaque do meu Estado em um filme sem que isso se torne pejorativo, é bom demais da conta!
Cheio de cores e luzes, aquele humor infante que me remeteu a infância de outrora quando eu me debulhava em lágrimas assistindo Os Saltimbancos dos Trapalhões, isso me fez pensar na delicadeza e profundidade em um único filme! Não foi à toa que ele foi tão bem recebido pelo público, pelos críticos e rendeu uma premiação de melhor diretor para Selton Mello no festival de Gramado. Muito Justo!
Este realmente é um grande filme que conta com com um elenco muito bom, e um artista que tenho muito orgulho em dizer que é brasileiro e mais ainda! É mineiro! Selton Mello nasceu para o cinema, ou o cinema nasceu para ele?


Se você acha que o cinema brasileiro resume-se às favelas, tráfico de drogas e às famigeradas comédias românticas da Globo Produções, sugiro desfaça esses pensamentos porque decididamente O Palhaço e tantos outros filmes (que pretendo comentar em breve) estão aí para mostrar o contrário. O Brasil tem uma forma peculiar de fazer cinema, assim como a Argentina, Itália, Espanha, EUA, etc, nós temos nossa própria cultura que deve ser valorizada. Entristece-me bastante quando escuto alguém dizer que não gosta do cinema nacional, no meu ponto de vista é não gostar de ótimos roteiristas, ótimos diretores e ótimos atores, e posso garantir que O Palhaço vai fazer você chorar e aplaudir de pé!
Livre-se dos preconceitos e assista este espetáculo singelo, puro, e apaixonadamente tocante dirigido, escrito e protagonizado por um dos melhores atores de sua geração. Senhoras e Senhores: Selton Mello.

Link para assistir online: O Palhaço

Cotação: 5 estrelas

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Nada Pessoal



Uma jovem recém-separada (Lotee Verbeeck) decide sair da cidade e perambular pelo oeste da Irlanda, vivendo apenas com o que a natureza lhe proporciona. Certo dia ela encontra um sítio cujo dono é Martin (Stephen Rea) e ele lhe oferece emprego no jardim em troca de comida. Arredia, a moça aceita com a condição de nunca fazerem perguntas pessoais.
Filme de 2009 escrito e dirigido pela polonesa Urzula Antoniak (Code Blue).
Urzula Antoniak conseguiu tocar em dois pontos que são difíceis para o ser humano: o recomeço e o início de uma relação. Ciclos da nossa vida que aparentemente podem ser banais, mas na verdade são bastante profundos e a cineasta conseguiu com um roteiro que praticamente não tem diálogo, tocar nessa ferida do homem : o medo do novo.
À princípio vemos a bela jovem em um apartamento que parece ser seu, olhando pela janela pessoas remexerem em caixas com objetos. Supomos então que sejam seus objetos já que o apartamento esta vazio. Ela passa os dedos sobre uma aliança e a tira.
Em seguida, ela já esta andando sozinha nas estradas, pedindo carona, acampando em lugares que parecem inóspitos (mas que não deixam de ser uma bela paisagem), comendo comida do lixo, correndo perigo nas estradas. Ela parece fugir. Mas fugir do que?
Tudo muda quando ela encontra o sítio de Martin. Um homem que assim como ela cultiva a solidão e aprecia a natureza. Ela começa a trabalhar para ele em troca de comida, nada de perguntas pessoais, nenhuma intimidade, a jovem parece não querer se abrir, mas também parece assustada, não quer se apegar e ser abandonada novamente.
Com o tempo uma relação começa a crescer de  forma bastante peculiar. Não é como em outros filmes em que as pessoas se conhecem conversando. Martin e a jovem criam um vínculo a partir de coisas concretas, e assim um vai ganhando o respeito e a confiança do outro. 
Isso nos faz pensar em como estabelecemos nossas relações. Martin não sabia o nome da jovem (até um certo momento), no entanto, ambos estavam visivelmente apaixonados. Uma relação madura que foi crescendo dia após dia e vencendo o medo de perder, de recomeçar.
Stephen Rea e Lotee Verbeeck emocionam com suas atuações. Não é preciso nenhum diálogo, não é preciso saber quem são, os olhares, os dedos que roçam, a música que toca, a retribuição de carinho, tudo tão minimalista e singelo, mas ao mesmo tempo poético! 


É o ciclo da vida, o eterno recomeçar, o depreendimento do passado, uma nova chance, a coragem. Nunca um "ei você!" soou tão romântico.

Link para assistir online: Nada Pessoal

Cotação: 5 estrelas

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Beleza Americana: A Beleza da Mentira e das Aparências



Em uma cidade no interior dos EUA moram duas famílias: uma delas vive um relacionamento extremamente falso. O casal parece ser dois estranhos, Lester (Kevin Spacey) é um homem conformado com uma vida que nunca quis. Sua esposa Carolyn (Annette Bening) é uma corretora de imóveis que só pensa em ter sucesso profissional, eles têm uma filha adolescente Jane (Thora Birch) que os odeia, sobretudo o pai sem uma razão aparente.
Os novos vizinhos mudam-se e parecem ser também uma família comum. O coronel da marinha Fitts (Chris Cooper) é rigoroso com sua esposa Bárbara ( Allison Janey) e seu filho Ricky ( Wess Bentley), ele mantém a casa como se fosse um quartel general, além de ser homofóbico e opressor.
Certa noite, Lester encanta-se pela melhor amiga de sua filha, Angela ( Mena Suvari), e decide fazer mudanças radicais na sua vida, enquanto Ricky e Jane iniciam um romance.
Filme de 1999 dirigido por Sam Mendes (Foi Apenas um Sonho). Ganhou o Oscar de melhor filme, melhor diretor, melhor ator (Kevin Spacey), melhor roteiro (Alan Ball).
Já mencionei aqui o quanto acho este filme fantástico. Ele consegue tocar na ferida do ser humano de uma forma poética, com um roteiro que simplesmente nos faz ter vergonha de ser quem somos.
Confesso que é preciso sim ter muita sensibilidade para captar as nuances do filme que às vezes podem parecer banais, mas não são. Todo o elenco esta afiadíssimo, mas destaco aqui as atuações de Kevin Spacey que merecidamente ganhou o Oscar, e de Annette Bening que faz o papel da insuportável Carolyn.
Juntos eles formaram um casal que eram dois desconhecidos, Carolyn só se importava com as aparências e Lester estava cansado do emprego e de toda aquela vida rasa que ele levava. Perto da filha e da esposa ele se sentia um perdedor, Kevin Spacey esteve ótimo interpretando o típico homem "preso a algemas".
É interessante observar como a postura de Lester vai mudando ao longo do filme. E quando falo postura, me refiro à postura corporal mesmo. No início vemos um homem meio corcunda, cabisbaixo, e que para ele a melhor hora do dia era quando se trancava no banheiro e se masturbava, parecia que o peso do mundo estava sobre suas costas, um peso que ele era obrigado a carregar, a suportar.
Tudo muda quando ele conhece Ricky, que por ser jovem e desistir de um emprego bem na sua frente,  faz com que Lester começe a repensar sua vida. Mas é em um jogo de basquete, durante uma apresentação de dança da sua filha que ele fica completamente fascinado por Ângela, e as fantasias que ele começa a ter com ela sempre coberta por pétalas de rosas, uma rosa que sua esposa cultivava no jardim e que existe nos EUA, uma flor muito peculiar que não tem espinhos e nem perfume, uma perfeita metáfora do ser humano vazio. Segundo as palavras do próprio Lester: "espetacular".


E é aí que as verdadeiras mudanças começam a acontecer. Lester larga o emprego, começa a malhar e fumar baseado, um homem visivelmente cansado de aparências e que queria viver como se cada dia fosse o último da sua vida.
Todos os personagens têm algo a esconder. Todos vivem de aparências, no entanto, mesmo este sendo o tema central do filme, ele também fala da coragem de recomeçar, de ser transparente.
E quanto ao coronel opressor que vivia dentro do seu mundinho cheio de regras e preconceitos? O que ele escondia debaixo daquela carcaça opressora?
Acredito que este seja o melhor trabalho de Sam Mendes. Roteiro, atuações consistentes, trilha sonora, fotografia, absolutamente tudo se encaixou culminando em uma obra-prima feita exclusivamente para repensar nossa postura diante da vida. Impossível ser o mesmo depois de assistir Beleza Americana.

Link para assistir online: Beleza Americana

Cotação: 5 estrelas



quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Réquiem Para um Sonho



Quatro personagens sonham com um futuro promissor: Sara Goldfarb (Ellen Burstyn) é viciada em TV e quer emagrecer para que seu vestido preferido lhe sirva e ela possa participar de um programa televisivo, obstinada, Sara recorre a um médico que lhe receita anfetaminas trazendo consequências físicas e psicológicas com o passar do tempo.
Sara é mãe de Harold (Jared Leto) que é namorado de Marion Silver (Jennifer Connelly) o casal sonha em abrir uma loja de roupas, mas eles tem mais que o sonho em comum, tem também o vício pela heroína.
Tyrone (Marlon Wayans) quer ter paz paz e sossego, mas também é viciado em heroína.
Filme de 2000 dirigido por Darren Aronofsky (Cisne Negro). Baseado no livro de Hubert Selby Jr.
Réquiem segundo o dicionário Priberam quer dizer "descanso, repouso", mas pode ser também uma música que era utilizada na antiguidade para os mortos.
Bem, comecei analisando o título da obra porque me parece bastante pertinente entendermos a razão do nome do filme e porque toca quase sempre a mesma canção.
Primeiramente devo dizer que acho este filme fantástico. Uma das primeiras películas de Aronofsky que já tinha se revelado um diretor promissor em "PI", no entanto Réquiem para um Sonho é menos experimental que seu antecessor e mesmo com o amadurecimento de Darren no cinema, existe uma coisa que lhe é peculiar: a câmera sempre focada nos personagens de maneira que consigamos enxergar o que o personagem enxerga e não o mundo visto de quem esta do lado de fora.


Além de Darren Aronofsky ser um diretor muito centrado (seu primeiro filme PI lhe rendeu o prêmio de melhor filme no festival de Sundance), ele consegue extrair o melhor dos atores. E Réquiem não me deixa mentir. Ellen Burstyn em uma atuação irretocável concorreu ao Oscar e injustamente perdeu. Jared Leto, Marlon Wayans que faziam filmes comerciais conseguiram se sair muito bem (Jared Leto teve que emagrecer muito para interpretar Harold). E Jennifer Connelly (sempre bela e convincente), arrisco a dizer que sua carreira tenha alavancado depois desse filme.
O filme não fala somente sobre o vício das drogas, fala também sobre o vício na TV, na comida. Interessante como mostra que as estações do ano estão intercaladas com as vidas dos quatro personagens: quatro estações, quatro pessoas correndo atrás de um sonho. Primavera e verão: Tyrone e Harold começam seu próprio negócio com drogas, entre Harold e Marion tudo esta perfeito. Sara começa a emagrecer tomando anfetaminas.
Outono e Inverno: Abstinência, crise no namoro, os extremos, a loucura.



"Tinham um ao outro e beijaram-se, e empurraram os medos um do outro para um canto, acreditando na luz do outro, no sonho do outro..."
Hubert Selby. Jr: autor do livro que deu origem ao filme

E por que dei a definição de réquiem no início da crítica? Toda vez que um dos personagens estava prestes a perder seu sonho, tocava a mesma canção. E particularmente achei a música bastante apropriada para as cenas, ela é triste, mas existe uma certa beleza nela, talvez a beleza de refletir sobre a morte dos nossos próprios sonhos.

Link para assistir online: Réquiem Para um Sonho

Cotação: 5 estrelas

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Saló ou os 120 Dias de Sodoma



Mais uma obra dirigida por Pier Paolo Pasolini em 1975, baseada no livro de Marquês de Sade "Os 120 Dias de Sodoma".
Quatro fascistas sequestram um grupo de jovens composto por homens e mulheres servindo como escravos sexuais, e sendo obrigados a praticarem os mais diferentes tipos de orgias.
Este foi o último filme de Pasolini e talvez o mais incompreendido. Alguns até o julgam como pornográfico, no entanto, mesmo sendo ainda leiga no que diz respeito sobre a obra desse gênio, atrevo-me a dizer que sua vida, seus ideais estavam intimamente ligados à sua filmografia. Já disse que todos os filmes de Pasolini eram de cunho politico, eram uma crítica escancarada à política italiana e a igreja. Pier Paolo Pasolini era homossexual, ateu e comunista.
Se você tem interesse em assistir Saló, sugiro que desfaça-se de suas crenças sejam elas religiosas ou  por qualquer outro motivo e tente assisti-lo sobre o ponto de vista político. Porque muito mais que "um festival de orgias" como dizem por aí, o filme é um grito político contra o fascismo e contra todos os regimes ditatoriais.
Os 16 jovens presos em um castelo por seus algozes, viviam sempre nus, e tendo que aceitar as duras regras impostas por seus ditadores. Há cenas de estupro, cenas escatológicas, sadismo, tortura, coisas que imagino que um prisioneiro de guerra, ou prisioneiro preso na época da ditadura tenha visto de perto.
E você pode perguntar, por que usar "cenas apelativas" para fazer um filme político? Além de Pasolini ser à favor da nudez, quando você assiste o filme livre de preconceitos, você percebe que o ser humano tem seu lado sádico, caso contrário o filme não estaria na lista dos filmes mais polêmicos da história, não?


Como já disse, Pasolini gostava de trabalhar com atores amadores. As cenas apesar causarem certo desconforto até hoje, foram muito bem dirigidas e construídas, mesmo sendo forte, acredito que Saló seja absolutamente necessário para qualquer cinéfilo. Continuo batendo na tecla de que existem filmes com violência explícita absolutamente descartáveis e que não sei porque cargas d'água são tão cultuados, e existem aqueles em que a violência é necessária para uma reflexão sobre a sociedade e sobre nós mesmos, afinal, Saló não se resume a um "festival de orgias." Se você espera isso de uma obra-prima como esta, sugiro que não assista.
Link para assistir online: Saló ou os 120 Dias de Sodoma

Cotação: 5 estrelas

sábado, 31 de agosto de 2013

O Evangelho Segundo São Mateus: O Evangelho Segundo Pasolini



Dirigido pelo italiano Pier Paolo Pasolini (Salò ou 120 Dias de Sodoma), a obra retrata fielmente a vida de Jesus Cristo segundo o Evangelho de São Mateus. Desde o seu nascimento, os milagres, suas pregações até sua morte e ressurreição.
Este filme me surpreendeu em vários aspectos. Primeiro porque para quem não conhece o diretor italiano Pasolini, atrevo-me a dizer que ele foi um gênio incompreendido não só na sua época como também nos dias atuais.
Pasolini era assumidamente homossexual, ateu e comunista. Todos os seus filmes são uma crítica à política italiana e à igreja católica que influenciava diretamente na política da época. Em Salò, sua última obra e talvez a mais criticada, Pasolini utilizou um conto do Marquês de Sade e transformou em uma grande denúncia não só contra o fascismo, mas contra todos os regimes ditatoriais. Infelizmente foi assassinado de forma brutal e a causa ainda é desconhecida, embora no filme Nerolio que retrata os últimos dias de vida do diretor, mostra que ele foi espancado até a morte por um garoto de programa, mas existe a hipótese de ter sido uma emboscada política.
Amado e odiado, Pasolini quando lançou O Evangelho Segundo São Mateus, muitos não entenderam já que ele era ateu. O que queria Pasolini com um filme que mostrava a vida de Jesus Cristo? Eu mesma fiquei surpresa. Se estamos falando de um diretor tão polêmico, esperava algo tão incompreendido quanto "A Última Tentação de Cristo" de Martin Scorsese.


No entanto, Pasolini fez uma obra belíssima, filmada em preto e branco com uma trilha sonora irretocável. O Jesus Cristo deste italiano não é como os dos americanos e europeus (representado sempre na figura de um homem loiro e com olhos azuis, como se no oriente-médio fosse fácil encontrar alguém com tais características). Pasolini escolheu um ator amador ( ele gostava de trabalhar com amadores), alto, moreno, com sobrancelhas grossas para fazer o papel de Jesus. Já saiu do estereótipo de vários filmes sobre a vida de Cristo que foram lançados nesta época.
Mas enfim, o que levou um ateu filmar a vida de Cristo? Modismo? Não. Depois de muito pensar, cheguei à conclusão que não foi por modismo e muito menos por fé, mas por política. Pasolini sendo comunista admirava a figura de Jesus Cristo que era um reacionário, lutava contra o sistema opressor, estava sempre à favor dos mais humildes e indefesos e não seria esta uma das premissas do comunismo?
Não estou querendo dizer com isto caro leitor que Jesus era comunista, mas talvez era para Pasolini, ou talvez Pasolini acreditava na existência de Cristo e admirava o trabalho e a coragem que ele teve, ironicamente morrendo por questões políticas.


Filmado em algumas terras áridas da Itália a fotografia é bela, olhares que expressam dor, alegria, a música que toca a alma. Pasolini conseguiu transformar a vida de Cristo em poesia. É uma obra imperdível de um dos maiores cineastas de todos os tempos e que ainda conta com a participação de sua mãe, Sussana Pasolini no personagem de Maria já com idade mais avançada.
Link para assistir online: O Evangelho Segundo São Mateus

Cotação: 5 estrelas

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Drácula de Bram Stoker: Romance e Luxúria



No ano de 1462, Constantinopla havia sido tomada. Na  Transilvânia surge um cavaleiro da Ordem dos Dragões para defender a cristandade na Europa. Draculea (Gary Oldman) parte em uma difícil missão deixando para trás sua amada Elizabeta (Winona Rider), que recebe a falsa notícia de que seu noivo tinha morrido. Desesperada ela suicida-se. A igreja a amaldiçoa e Draculea renuncia Deus e todos os seus princípios cristão tornando-se uma criatura das trevas perambulando por quase quatro séculos.
Quando contrata um advogado Jonathan (Keanu Reeves) para comprar alguns terrenos em Londres, descobre que Jonathan é noivo de Mina a reencarnação da sua Elisabeta. O excêntrico conde faz de Jonathan prisioneiro para reencontrar seu amor eterno.
Filme dirigido por Francis Ford Coppola (Apocalipse Now) de 1992, ganhador de três oscars: melhores efeitos sonoros, melhor figurino e melhor maquiagem.
Este filme já tem 23 anos e posso me arriscar a dizer que tornou-se um grande clássico dos anos 90. À priori, era para ser rodado para a TV, no entanto, o roteiro chegou nas mãos de Winona Rider e o entregou a Coppola, decidindo então dirigi-lo.
Confesso que nada entendo de vampiros, e não li o livro de Bram Stoker, por isso não poderei dizer se o roteiro foi ou não fiel ao livro. O que nós leigos sabemos é que vampiros são criaturas que vivem nas trevas, seres do mal e que devem ser combatidos com água benta, crucifixos, alho, estaca e uma parafernália sem fim.
Mesmo com a minha ignorância sobre o tema: "vampiros", acredito que Bram Stocker conseguiu dar um pouco de "humanidade" ao temível Conde e Coppola soube retratar de forma brilhante o que acabo de escrever. O sentimento que temos por Drácula é o de compaixão, e em alguns momentos sedução.


Toda a produção do filme, figurino, as músicas de fundo, maquiagem, o clima totalmente misterioso .contribuíram para que esse clássico se tornasse um romance gótico. Sim! Em alguns sites ele esta classificado como terror, mas é um drama sobre o amor romântico que atravessa séculos, que é imortal.
Vejo também como os personagens ficam divididos entre o bem e o mal. Algo tão típico do ser humano! O comportado Jonathan não resiste à tentação das três vampiras, Lucy a melhor amiga de Mina, se entrega a uma criatura que era meio lobo e meio humano, Mina mesmo sendo a reencarnação de Elisabeta, coloca em dúvidas seus sentimentos à respeito do noivo, mostrando-se completamente entregue ao "príncipe".
Percebo nessas nuances um certo paralelo que o autor do livro fez, com a nossa capacidade de nos sentirmos atraídos pelo obscuro. Não precisamos necessariamente fazer mal a ninguém, mas há um lado sádico ou masoquista que às vezes nos faz pensar: "será mesmo essa vida pacata e certinha que desejo para mim?"
Ainda contamos com a ilustre presença de Antony Hopkins no papel de Professor Van Helsing. Como podem ver o elenco é de peso, exceto pela famigerada atuação de Keanu Reeves, um ator que sempre esteve muito abaixo do esperado. Uma atuação medíocre!
A história além de romântica é pura luxúria! Coppola soube utilizar muito bem o encanto das belas mulheres, sem ser apelativo. As cenas são de uma sensualidade primorosa, e Gary Oldman apesar de ter desaparecido debaixo daquela maquiagem, tenho quase certeza de que seu Drácula permeia ainda a imaginação de muitas mulheres.


É um clássico que você não pode deixar de assistir. Link para assistir online: Drácula de Bram Stocker

Cotação: 4 estrelas

domingo, 18 de agosto de 2013

Irreversível: Vingança e Machismo



Filme francês de 2002 dirigido por Gaspar Noé (We Fuck Alone), com Vincent Cassel (Marcus), Monica Bellucci (Alex) e Albert Dupontel (Pierre).
O filme narra uma história de vingança de trás para frente protagonizada por Marcus e Pierre. Alex, namorada de Marcus foi estuprada e brutalmente espancada. Na primeira cena vemos os dois amigos desesperados atrás do criminoso. O que vem a seguir são os fatos que os levaram àquele ponto.
Fazia tempo que precisava ver este filme, mas por questões pessoais não consegui. Como já devem saber, há duas cenas fortemente violentas: a cena em que Pierre atinge o rosto do estuprador com um extintor de incêndio e a tão famosa cena de Alex sendo estuprada. Esta é uma longa sequência em que nenhum telespectador (mesmo os que têm nervos de aço) consegue sair imune diante de tanta barbárie cometida contra uma mulher.
Finalmente consegui me desfazer do que me impedia de assisti-lo. Este filme sempre esta na lista dos mais violentos, dos mais chocantes, etc. Portanto, mesmo tendo achado o filme razoável, não aconselho às pessoas mais sensíveis, mesmo achando que às vezes você precisa se deparar com o que você acha que esta distante de você, mas não esta. Uma mulher pode estar sendo atacada ao lado da sua casa enquanto você assiste a saga "Crepúsculo".
Já no início nos deparamos com os créditos finais de trás para frente, e em seguida vem Gaspar Noé com sua câmera girando em torno de Marcus e Pierre, o jogo de luzes que às vezes causam certo incômodo. Aliás, me parece que Gaspar Noé gosta de brincar com câmeras e luzes. No curta-metragem "We Fuck Alone" há até uma advertência para que pessoas epiléticas não o assistam justamente por esta razão.
Não assisti "We Fuck Alone" por considerar o curta machista quando foca justamente na masturbação masculina, e particularmente não estava interessada em assistir um garoto que se masturba com uma boneca inflável. É por isso que quando me descrevo para o blog digo: "não me considero cinéfila", entendo como "cinéfilo" quem assiste de tudo, e devo confessar que sou bastante seletiva nas minhas escolhas.
Irreversível não é um grande filme, e esta longe de ser uma obra-prima como já vi muitos comentários. Não há nada de inovador no roteiro e sei que serei crucificada por isso porque o filme tornou-se um verdadeiro cult.
Se formos analisar friamente a obra o que temos? Um homem que quer vingar o estupro da sua mulher. É só isso. Gaspar Noé usou um assunto clichê para chocar e confundir a plateia com as cenas de violência explícita e a história de trás para frente. Não vi nenhum mérito nisso, portanto, utilizo uma expressão ainda mais clichê que o filme: superestimado.
E como se não bastasse o roteiro fraco, uma mesmice, Gaspar Noé coloca o machismo ali nas entrelinhas para que os telespectadores menos desatentos não percebam. E de fato não percebem porque tudo que o sadismo cinéfilo pede é para ver Monica Bellucci sendo estuprada e espancada por quase dez minutos. Talvez por isso essas nuances tenham passado despercebidas.


Onde esta o machismo? Ora, em um diálogo entre Alex, Marcus e Pierre (que foi namorado de Alex), Marcus e Pierre começam a comentar sobre a intimidade que cada um teve com Alex, objetificando-a, enquanto ela ri e começa a orientar sexualmente Pierre sobre como ele deveria agir com as mulheres, e Marcus não se importa. Esta cena inclusive foi rodada dentro de um metrô, enquanto os três estavam indo para uma festa e Alex vestia uma blusa por cima do vestido. Quando ela vai embora da festa, cadê a blusa? Seria erro de gravação?
Os três chegam na festa e Marcus parece um adolescente. Deixa a namorada sozinha, cheira cocaína, beija outras mulheres, enquanto Pierre pede para que ele não faça aquilo. Marcus pouco se importa com sua namorada, tudo era diversão e em uma conversa com Alex, os dois começam a discutir e ela vai embora irritada e sozinha.
Aí volto na cena inicial quando Pierre e Marcus saem da festa, e Pierre demonstra uma certa preocupação com Alex e Marcus diz: "deixa pra lá, eu dei dinheiro para o táxi " Sem falar que a personagem de Bellucci é a típica mulher apaixonada e sonhadora, sensível, mas isso não é justificativa para aceitar as infantilidades do namorado.
Quando Alex entra no túnel para pegar o metrô, as cores mudam. As paredes ficam vermelhas, luzes piscando e nós já sabemos o que irá acontecer. Sim, sentimos vontade de impedir que Bellucci continue seu trajeto, mas ela é surpreendida com um homem espancando uma mulher. Quando tenta fugir, o predador a pega, e é aí que começa a tortura dela e a nossa.
Não desmereço a cena de violência, acredito que ela foi necessária. Como escrevi no início, às vezes precisamos entrar em contato com o que aparentemente esta longe da nossa realidade para que possamos pensar, refletir. E é exatamente isso que acontece, embora seja brutal e deprimente, não vamos ser hipócritas. O filme só alcançou certa fama porque tem uma mulher sendo explicitamente violada. As pessoas querem ver isso por diferentes razões: há os onanistas de plantão, há quem gosta realmente de filmes com esta temática, e há quem prefere refletir sobre tudo que aconteceu. Por exemplo, enquanto Alex estava naquele martírio, lá no fundo do corredor aparece um homem, e ele foge. Você o que faria se visse uma mulher sendo agredida na sua frente?
Outro ponto que podemos questionar é sobre a sede de vingança de Marcus. Ele estava tão obstinado que eu realmente não sei se o que ele queria era fazer justiça, ou se era novamente o machismo gritando, afinal, um desconhecido transou com sua mulher. É claro que há a revolta, o desespero, mas confesso que não pude definir muito bem a personalidade de Marcus.
Para mim, o grande mérito mesmo foi de Monica Bellucci por sua interpretação como a vítima da violência. Imagino que não deve ter sido fácil gravar esta cena, e mais ainda para uma mulher ter que transmitir tamanho sofrimento.
Depois de assistir ao filme, a pergunta que fica é: a vingança vale mesmo à pena? Quem saiu ganhando afinal?

Cotação: 3 estrelas

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Harvey: Nove minutos para desmistificar o mito do amor romântico


Curta-metragem canadense de 2001 dirigido por Peter Mcdonald que com pouco mais de nove minutos mostra o sofrimento de um homem incompleto, e que vê na sua vizinha a possibilidade de se sentir inteiro.
Devo dizer que Peter Mcdonald foi realmente um gênio em abrir um leque de interpretações para um curta que tem apenas nove minutos. E isso não é mostrado de forma simples. Minto! É mostrado de uma forma estranhamente simples.
Todo o filme foi rodado em preto e branco, isso contribuiu ainda mais para absorvermos o sofrimento de uma alma atormentada presa na solidão, pedindo desesperadamente que alguém a ajude, que a tire do abismo profundo e escuro. É isso que você vê na primeira cena: um homem preso em um quarto escuro pedindo socorro para sua vizinha. Ela entra assustada para seu apartamento e cumpre com suas obrigações.
Mais à frente vemos que o homem esta literalmente pela metade, como se tivesse sido cortado, e é exatamente esta vizinha que ele escolha para ser sua outra metade subjugando-a, forçando a uma situação que ela não queria.
Por que Peter Mcdonald desmistifica o amor romântico? Ora, no amor romântico sempre existe o "mito" da minha metade, "preciso encontrar alguém que me complete", e o diretor coloca abaixo essa visão pueril sem falas e com apenas nove minutos.
Algumas pessoas podem ficar chocadas, as mais sensíveis, as mais românticas, mas basta analisarmos a obra racionalmente para percebermos que essa "metade" não existe, ela é utópica.
Se você acredita que outra pessoa possa te completar, isso é quase como escravizar o outro, forçar o outro a te amar a qualquer custo. Se duas metades se unem, sempre sobra alguma coisa. E a pergunta que o filme nos leva a fazer é: "o que falta em mim?''
Não caros leitores, não estou escrevendo nada contra o amor. Pelo contrário! Eu o defendo. Mas não esse amor que fomos forçados a acreditar, que só seremos felizes se estivermos com alguém.
Sê inteiro! Ame sua própria companhia e o outro será complemento, e não um pedaço. E quando os dois corpos inteiros se unirem, nada sobrará e nem faltará. Sem isso, estamos fadados a sermos eternamente metades trancafiadas em um quarto escuro.

Cotação: 5 estrelas 

P.S: Obrigada ao amigo Jackson pela indicação.

sábado, 10 de agosto de 2013

A Outra História Americana e uma breve reflexão sobre o ódio.



Filme de 1998 dirigido por Tony Kaye ( Desapego) com Edward Norton e Edward Furlong nos personagens principais.
Derek (Eduard Norton) busca preencher seu vazio interno tornando-se um influente skinhead e disseminando discursos de ódio para que mais pessoas fizessem parte da gangue. 
Durante à noite, Derek mata dois negros que tentavam arrombar seu carro e é preso em flagrante. Três anos se passam e ele consegue sair na condicional, no entanto, Derek já não é mais o mesmo. Algo acontece dentro da penitenciária que o faz mudar, e agora ele luta para que seu irmão mais novo Danny (Edward Furlong) não siga os mesmos passos.
Quando assisti Desapego (um excelente filme por sinal, e que já foi comentado aqui), não fazia ideia que era do diretor Tony Kaye o mesmo que dirigiu A Outra História Americana. Já assisti incontáveis vezes e tornou-se o meu queridinho, assim como o diretor que fez um excelente trabalho em ambos os filmes.
Creio que o grande trunfo deste filme esteja na atuação consistente, forte e ao mesmo tempo sensível de Edward Norton que merecidamente concorreu ao Oscar de melhor ator. Simplesmente é impossível para mim imaginar outro ator no personagem de Derek, este foi o primeiro filme que assisti com ele e mesmo aqueles que não entendem desta parte técnica do cinema irão concordar comigo: Norton é um ator inquestionavelmente talentoso.
Um outro ponto que gosto bastante nesse filme são os flashbacks que Danny tem antes de Derek sair da cadeia. Os flashbacks são preto e branco talvez para combinar com aquela vida que Derek estava inserido. Ele estava com raiva do mundo porque o pai foi morto por um negro enquanto trabalhava, e isso bastou para que ele entrasse para um grupo de skinheads e odiasse qualquer um que não fosse americano, branco, loiro e com olhos azuis.
Na cena do assassinato em que Derek mata os dois negros, creio ter sido uma das cenas mais violentas que já assisti. Tudo continua em preto e branco, a polícia chega, Derek entrega a arma, se volta para a câmera com uma expressão sarcástica, e o orgulho de ter a suástica tatuada no peito. É um momento em que você até consegue ler o pensamento do personagem: "matei dois negros. Estou ajudando a limpar meu país e me orgulho disso"


Outro ponto interessante foi como Tony Kaye mostrou o quanto o ódio é contagioso. Eram negros contra brancos, brancos contra hispânicos, asiáticos, judeus. E aí nos perguntamos: de onde vem tudo isso? Por que? Creio que seja uma questão cultural. Judeus são perseguidos há mais de 5.000 anos, negros foram feitos escravos, tudo isso que você vê no filme e na vida real são resquícios da discriminação, do preconceito dos nossos antepassados que se julgavam superiores.
Não importam os motivos para tanto sangue derramado. Porque uma coisa não se pode negar: sangue de inocentes foi derramado em vão, tudo por causa da intolerância e o desrespeito com a religião do outro, a orientação sexual, a cor da pele, a cultura.
É na penitenciária que Derek conhece o que seus "irmãos brancos" são capazes, e ele então precisa fazer a difícil  escolha sobre qual caminho seguir dali em diante.
Creio que este filme pode servir de reflexão não só para questões neonazistas, mas também podemos refletir sobre nós mesmos. O que estamos levando dentro de nós? Toleramos as diferenças? Existe pelo menos respeito? No entanto, enquanto os créditos finais vão subindo, a pergunta que prevalece é: valeu à pena tanto ódio?
Se o roteiro do filme tivesse um olhar mais atento, certamente algum professor faria com que seus alunos o vissem. Eu enquanto pedagoga, gostaria muito de saber a opinião dos jovens sobre esta obra que abre um leque de temas para serem discutidos e pensados.

Link para assistir online: A Outra História Americana


"Seu ódio esta te consumindo. Ele esta dominando seu cérebro."

Cotação: 5 estrelas

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Cisne Negro: A Eterna Luta entre o Bem e o Mal



Obra de 2011 dirigida por Darren Aronofsky (Requiem para um Sonho), com Natalie Portman (Nina Sayers), Vincent Cassel (Thomas), Mila Kunis (Lily) e Winona Rider (Beth).
O filme conta a história de Nina, uma jovem bailarina de uma companhia de dança que após anos de dedicação, recebe o papel da "rainha do lago" em uma versão do "Lago dos Cisnes".
Obcecada com sua perfeição, Nina entra em um universo de alucinações e paranoia, até chegar a um ato extremo.
Acredito que para entender um pouco este complexo filme, é preciso conhecer a história "O Lago dos Cisnes"
A princesa Odette é mantida em cativeiro por um feiticeiro que lança sobre ela um terrível encanto: durante o dia ela seria cisne, e somente à noite se tornaria humana. Para quebrar o feitiço, Odette deveria encontrar um homem que a amasse por toda a vida.
O príncipe Seigfried sai para caçar cisnes no seu 21° aniversário, noite em que também haveria um baile e ele deveria escolher sua esposa dentre as moças do reino. Já estava anoitecendo e o príncipe avista Odette no lago, encantado com sua beleza, ela conta seu segredo e ele jura amor eterno, no entanto, durante sua festa o bruxo von Rothbart aparece com a gêmea má de Odette, o Cisne Negro Odile.
Enfeitiçado pela sensualidade de Odile, Seigfried a escolhe, mas o príncipe descobre a farsa e vai atrás de Odette. Já quase amanhecendo, Seigfired pede perdão à sua amada e os dois se jogam no lago fazendo com que o bruxo perdesse todo o seu poder, e os dois amantes pudessem assim encontrar a libertação.
Este é um resumo do balé mais famoso do mundo e que inspirou Aronofsky a produzir a obra-prima que é Cisne Negro. Sempre admirei seu trabalho desde quando assisti ao experimental "PI", passando por filmes mais conhecidos como "Requiem para um Sonho", "Fonte da Vida" e "O Lutador".
A evolução técnica dos seus trabalhos é algo visível. Desde a escolha do elenco, até o figurino, maquiagem, mas tem pelo menos um aspecto que ele não muda: a câmera. Aronofsky filma os personagens de uma forma que o telespectador entre naquele mundo. Foi assim em todos os seus filmes, e não poderia ser diferente em Cisne Negro.
Com uma mega produção, elenco de primeira, Darren Aronofsky posiciona a câmera com esse seu jeito único, e nos faz entrar nas alucinações de Nina. Aliás, quem é Nina?
À princípio vemos uma moça pudica, extremamente centrada na dança e superprotegida pela mãe. Uma verdadeira princesinha. Nina não vive, não tem amigos, é a típica pessoa que pede desculpas até por sua existência.
Quando é escolhida para  interpretar a rainha dos cisnes, ela entra em total estado de obsessão e loucura, pois ela e Thomás sabiam que sua maior dificuldade seria a de interpretar o Cisne Negro. 
Certa vez li uma crítica à respeito deste filme que dizia o seguinte: "Aronofsky reduziu o trabalho das bailarinas ao sexo." Isso porque Thomas pede que Nina se masturbe, que se deixe levar, que viva! Não entendo de danças, mas discordei completamente desta frase. Ora, Nina interpretaria uma personagem virginal, pura e outra maléfica, sexy, é claro que esse lado precisava ser trabalhado, ou melhor, vivenciado!
Tanto na história original do Lago dos Cisnes como no filme Cisne Negro, vejo claramente a eterna luta entre o bem e o mal. O bem e o mal que todos carregamos dentro de nós porque somos humanos e buscamos desesperadamente para que ambos estejam em equilíbrio, caso contrário sucumbimos. Cisne Negro foi genial em mostrar esse embate, até mesmo na polêmica, mas imaginária, cena lésbica entre Nina e Lily em que fica clara a "transformação de Odette para Odile".


Outro aspecto que é mostrado é a rivalidade existente nos bastidores das companhias de dança, inveja, a troca de bailarinos como se fossem bonecos, Beth foi trocada por Nina sem o seu consentimento. A luta para manter o peso ideal. No balé e no mercado da moda é onde estão a maior incidência de bulimia e anorexia. Não é preciso ser especialista em saúde mental para saber que Nina sofria de bulimia, tudo pela arte, tudo pela perfeição, tudo para não ser descartada.


E quanto a Thomas? Thomas é o professor impiedoso que exige o máximo de Nina. Vincent Cassel ficou muito bem no papel de canastrão sádico.
E para quem criticou o Oscar de Natalie Portman só tenho uma coisa a dizer: O Lago dos Cisnes é um dos balés mais difíceis de representar justamente porque a bailarina principal precisa representar Odette/ Odile. É claro que Aronofsky precisava de uma atriz que além de ter estudado balé (Portman não faz todas as cenas, há dublês), ela também teria que ser capaz de representar o bem e o mal. Natalie simplesmente brilhou. Se você ainda não assistiu, confira você mesmo!

Link para assistir online: Cisne Negro

Cotação: 5 estrelas

sábado, 27 de julho de 2013

Amor e Dor: reduzindo a imagem da mulher ao nada


Filme dirigido e escrito  pelo cineasta chinês Lou Ye ( Borboleta Púrpura), a película conta a história da chinesa Hua (Corinne Yam) que vai para Paris estudar, e acidentalmente conhece o construtor civil Mathieu ( Tahar Rahim), homem rude e sem qualquer instrução, no entanto, as diferenças culturais não impedem que os dois iniciem uma relação doentia. Filme de 2011.
Antes de começar a falar do filme, creio que o nome deveria ser "O que as mulheres não podem aceitar dos homens", ou "Eu sou uma idiota e não tenho amor próprio", e por aí vai. Porque entre Hua e Mathieu poderia existir todos os tipos de sentimentos, menos amor. Não pelo que eu particularmente entendo como amor, aquele que cuida, que respeita, que quer ver o outro feliz. Em momento algum Mathieu fez isso por Hua. É o típico homem machista e egocêntrico.
Mas vamos por partes. Já no início do filme Hua aparece implorando amor a um ex-namorado que ela conheceu em Pequim, e que não queria mais nada com ela na França. Pressupõe-se então que Hua mudou-se para França apenas por causa deste homem. Ela sai desorientada pelas ruas de Paris, quando é atingida acidentalmente por uma barra de ferro que Mathieu segurava e é aí que os dois se conhecem.
Mesmo o primeiro encontro sendo para mim algo grotesco e desrespeitoso, ainda quis dar mais uma chance ao filme pois pensei que Hua estava tão triste e deprimida que não tinha mais nada a perder, no entanto, eu estava enganada porque o que vem a seguir é um grito latente à misoginia, machismo, estupro, e a imagem da mulher apática que deve aceitar calada tudo do "seu homem"
Cenas de sexo excessivas que cansam, uma mulher culta com um futuro promissor se sujeitando a abusos físicos e verbais, simplesmente não entra na minha cabeça. E não é porque Mathieu não teve oportunidade de estudar, ele é assim. Creio até que o filme foi preconceituoso quanto a isso já que Mathieu é a personificação do homem das cavernas, enquanto que o namorado de Hua que morava em Pequim, professor universitário, culto, era um verdadeiro príncipe. Qualquer pessoa bem informada sabe que a violência contra a mulher não escolhe classe social.
Eu ainda quis dar uma chance ao diretor e pensei: "talvez ele queira mostrar o como existem mulheres afundadas nesse tipo de relação!" Mas não! Não se pode pegar uma personagem e torna-la vítima de suas escolhas! Por que não mostrar uma mulher forte, que diz "não"? Mesmo que o preço que ela tenha que pagar seja alto?
Este não é um filme romântico. Lou Ye foi completamente infeliz com seu roteiro e direção, talvez o único mérito do filme seja questionar essas relações doentes.


Cotação: 1 estrela

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Camille Claudel: entre a genialidade e a loucura.


Filme francês de 1988 dirigido por Bruno Nuytten (A vida de Albert), conta a história da escultora Camille Claudel (Isabelle Adjani), que em 1885 entra em conflito com sua família ao se tornar assistente e amante do já renomado escultor Auguste Rodin (Gérard Depardie) . Decidida a trabalhar por conta própria, Camille rompe com Rodin e cai em um abismo de solidão e paranoia.
Esta é uma obra para quem quer conhecer um pouco mais sobre esta grande artista Camille Claudel. Filha mais velha de uma família pequeno-burguesa, seu pai sempre apoiou seu talento e a matriculou nas melhores escolas de belas artes de Paris. O irmão mais novo Paul Claudel queria ser escritor, no entanto, o pai apostava no talento da jovem e impulsiva Camille, para desgosto da mãe que não acreditava e nem entendia o talento da filha.
Isabelle Adjani esteve fantástica no papel de Camille. Não foi por menos que ela ganhou o César (o Oscar francês por sua atuação). Creio que posso dizer o mesmo de Gérard Depardie, que fez um Rodin cheio de mulheres, mas que encontrou sua inspiração perdida em Camille.
Camille Claudel enfrentou a sociedade para fazer arte e para viver o amor. Teve a oportunidade de trabalhar como assistente de Rodin em uma exposição em Paris, no entanto, achou que já era hora de ter vida própria. Rompeu definitivamente com Rodin, alugou um apartamento, e começou a esculpir por conta própria. Graças a amigos influentes ela pode expor seu trabalho com sucesso de crítica, porém, sua genialidade já estava consumida pela loucura.


A verdadeira Camille Claudel

Camille fica paranoica e começa a acreditar que Rodin roubaria todas as suas peças e expô-las em seu nome. Ela acreditava em um complô, e com a morte do pai, Camille se isola definitivamente do mundo, sendo internada em 1915 pelo irmão. Camille Claudel ficou 30 anos em um sanatório, morrendo antes de completar 79 anos.
O filme me emocionou muitíssimo porque sempre ouvia falar de Camille Claudel, mas não imaginava que sua história fosse tão sofrida. E mais! Que sua história e sua obra se interligassem com a de Rodin.
Sem dúvidas foi uma mulher notável e o diretor teve muita sensibilidade em transmitir isso através da excelente Isabelle Adjani. Certamente é uma história que nos permite perguntar: existe alguma relação entre a criatividade e a loucura?
Não sou nenhuma especialista em esculturas, pinturas, mas creio que a obra de Camille Claudel deveria ser totalmente desvinculada da obra de Rodin, visto que seu período mais produtivo foi durante o rompimento com o escultor, período em que estava em profunda depressão, mas também um período de grande amadurecimento profissional.


Camille esculpindo.

Destaque para maquiagem, figurino, trilha sonora e fotografia que formaram um espetáculo à parte.

Cotação: 5 estrelas





Uma de suas estátuas denominada: Abandono

Cotação: 5 estrelas

Link para assistir online: Camille Claudel